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Planeta extra-solar a aproximar-se

A 11 anos-luz de distância da Terra, planeta extra-solar está a aproximar-se de nós e daqui a 71 mil anos estará aqui ao lado.

Se até há poucos anos, as estrelas mais perto de nós pareciam não ter planetas à volta, hoje já sabemos que não é assim. E agora descobriu-se também que o planeta Ross 128 b, a apenas 11 anos-luz de distância de nós e do tamanho da Terra, orbita uma estrela anã que lhe poderá permitir a existência de condições favoráveis à vida. É o segundo planeta com condições temperadas (leia-se: não é um forno) mais perto de nós, um resultado agora publicado na revista Astronomy & Astrophysics por uma equipa internacional que inclui o investigador português Nuno Santos.

Mais perto da Terra, temos a estrela Próxima do Centauro e as duas estrelas do sistema Alfa do Centauro A e B, todos aproximadamente a 4,3 anos-luz de distância de nós. Desde 2012 que sabemos que o sistema Alfa do Centauro tem um planeta, mais exactamente à volta da estrela Alfa do Centauro B. E em 2016 ficámos a saber que Próxima do Centauro também tem um planeta rochoso como a Terra, o Próxima b.

Portanto, temos aqui mesmo ao nosso lado, cosmicamente falando, três estrelas. A Alfa do Centauro A e B, duas estrelas semelhantes ao nosso Sol, estão a abraçar-se rodando uma em torno da outra. Numa órbita mais afastada, anda a Próxima do Centauro, uma estrela mais pequena, mais fria e pouco brilhante (uma anã vermelha), que roda à volta das outras duas estrelas. Na verdade, neste momento da sua órbita, a Próxima do Centauro é a estrela mais perto de nós.

De vez em quando, muitas estrelas anãs vermelhas, como a Próxima do Centauro, têm fenómenos explosivos, que banham os planetas nas suas órbitas com doses letais de raios X e radiação ultravioleta, explica um comunicado do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. E não deverá haver formas de vida que aguentem tamanha radiação.

Mas a estrela que o Ross 128 b orbita é uma anã vermelha pouco activa, com pouco mais de metade da temperatura do nosso Sol, por isso poderá haver condições para que a vida surja e floresça, pelo menos teoricamente. A radiação com que esta estrela banha o planeta é apenas 1,38 vezes superior à irradiação que chega à Terra.

Detectado por um instrumento instalado num telescópio que o Observatório Europeu do Sul (ESO) tem no Chile, através da detecção de pequeninas oscilações provocadas na velocidade da estrela, à medida que a orbitava, o novo planeta completa uma volta à estrela em dez dias, encontrando-se a uma distância cerca de 20 vezes mais próxima daquela que separa a Terra do Sol.

As estimativas para a temperatura do Ross 128 b variam entre 60 graus Celsius negativos e os 20 graus – ou seja, não é um inferno, como acontece com outros planetas muito perto de estrelas maiores. “Mas devido à incerteza nestes cálculos, ainda não é certo se o planeta está dentro, ou imediatamente fora, da zona de habitabilidade da sua estrela”, acrescenta o comunicado, referindo-se à distância entre o planeta e a sua estrela que permita ter temperaturas amenas e a existência de água líquida, uma condição considerada essencial à vida como a conhecemos.

Por estar aqui tão perto e com estas condições, o Ross 128 b é um candidato perfeito para observações astronómicas com instrumentos mais poderosos, e é isso que sublinha precisamente Nuno Santos, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “Este resultado ilustra a capacidade já existente para encontrar e, no futuro, caracterizar em detalhe e de forma recorrente planetas que reúnam as condições necessárias para a presença de vida”, diz o astrofísico, acrescentando que a equipa daquele instituto traçou um plano que inclui “uma forte participação em missões espaciais da Agência Espacial Europeia e em vários equipamentos do ESO”, como o futuro telescópio Extremely Large Telescope (ELT) ou o espectrógrafo ESPRESSO, que entra em funcionamento ainda este mês.

Mas há outro aspecto interessante neste planeta. Actualmente está a 11 anos-luz de distância da Terra, mas ele e a sua estrela estão a aproximar-se de nós. E daqui a 71 mil anos, o que à escala do Universo é nada, tornar-se-á o planeta extra-solar vizinho mais próximo, destronando assim o planeta Próxima b. Desde 1995, o ano da descoberta do primeiro planeta noutro sistema solar, já estão confirmados mais de 3700 planetas extra-solares, alguns rochosos e do tamanho da Terra, alguns em zonas de habitabilidade. Esperemos que a humanidade ainda por cá ande para dar ao Ross 128 b as boas-vindas.

Notícia do Público de 15/11/2017.