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O outro lado do espelho

Permita-me levantar um espelho.

Poucos serão os sortudos que olham para o seu reflexo e não são invadidos por pensamentos sobre aspetos que desejam mudar na sua aparência física. Como desenvolvemos uma cultura tão repressiva do nosso corpo que é único e insubstituível?

Sim, este desejo de perfeição sempre existiu. Mas não podemos negar a intensificação causada pela omnipresença dos media, particularmente, das redes sociais, que vendem a ideia de “o teu corpo não é perfeito”. E todos, passivamente, a compramos.

O famoso algoritmo está construído para aumentar a gravidade deste problema. Vejo uma fotografia. Observo cada curva, cada detalhe. Comparo-me, obsessivamente, com este modelo que quase não existe, após tantos retoques. O que acontece então? Como passei tanto tempo obcecada com a perfeição inalcançável daquela fotografia, o algoritmo vai certificar-se que os próximos posts que me vão aparecer são tão ou mais perfeitos e tóxicos que o post inicial.

O problema torna-se ainda mais relevante em pessoas que desenvolvem perturbações psicológicas, nomeadamente a Perturbação Dismórfica Corporal. E sim, a doença psicológica é tão real como uma doença dos pulmões ou do fígado. E sim, a sociedade teima em desvalorizá-la.

O que é a Perturbação Dismórfica Corporal? Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, esta perturbação caracteriza-se pela “preocupação com um ou mais defeitos ou falhas percebidas na aparência física que não são observáveis ou que parecem leves para os outros” e cuja resposta do doente passa pela obsessão em comparar-se ao outro. É como se fosse um espelho imaginário que amplia os mais pequenos defeitos e os torna descomunais. A idade mais comum para o início desta perturbação é entre os 12 e os 13 anos.

O que se torna irónico é que a própria sociedade é dismórfica.

Entenda-se, não a perturbação mental, mas sim a conceção original da palavra “irregularidade desagradável / defeito”.

Por que criamos um ambiente tão hostil ao crescimento dos adolescentes? Para que servem estes ideais de beleza inatingíveis e oníricos que os media vendem como reais?

Permita-se levantar o espelho.

Olhe o seu reflexo de forma consciente e crítica.

Atreva-se a substituir a cultura vigente da autoaversão pela cultura da autoaceitação.

Ana Raquel Rodrigues
Aluna de Medicina da Universidade da Madeira.

Publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA, no âmbito da parceria com a ACADÉMICA DA MADEIRA.