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Algoritmos Tornaram-se Inteligentes

Se os algoritmos informáticos surgiram em meados da década de 1940, porque hoje se acentuaram as discussões à volta da IA? A resposta é simples: os algoritmos tornaram-se inteligentes.

Os computadores, essas máquinas universais, são “simplesmente” dispositivos de processamento de informação. Temos vindo a testemunhar, nas últimas décadas, uma evolução exponencial no desenvolvimento das tecnologias de informação, muito devido ao desenvolvimento da electrónica e, sobretudo, da informática com algoritmos cada vez mais complexos.

Mas, o que são algoritmos? No contexto da informática, um algoritmo consiste num conjunto de operações e de instruções que, quando aplicadas a um problema, dão uma resposta ao mesmo. Os exemplos de algoritmos vão desde as mais simples aplicações, tal como dividir dois números, às mais complexas, tal como a modelagem tridimensional.

Ora, Inteligência Artificial (IA) não é nada mais, nada menos, do que algoritmos informáticos. Se os algoritmos informáticos surgiram em meados da década de 1940, porque hoje se acentuaram as discussões à volta da IA? A resposta é simples: os algoritmos tornaram-se inteligentes.

Quer isso dizer que os algoritmos passaram a dar resposta a situações para as quais não foram preparados para responder. Os algoritmos inteligentes aprendem, tal como nós, com experiências e, a partir destas, inferem a melhor resposta para um determinado acontecimento. Se por um lado, nós, humanos, obtemos a informação e as experiências a partir dos nossos cinco sentidos, por outro lado, os algoritmos inteligentes são capazes de obter informação de um número (quase ilimitado) de sensores.

É incrível pensar como passámos da criação de instrumentos “simples”, como o arco e flecha (ou até antes destes), à possibilidade de criarmos computadores que almejam alcançar o funcionamento da mente humana. E é aqui que começam a emergir problemas.

Um deles é o medo de que os sistemas de IA venham a substituir os seres humanos nas suas tarefas. Na verdade, esse medo não é recente, remontando às duas primeiras revoluções industriais. O movimento mais conhecido destas épocas denominava-se “Luditas” — grupo de operários ingleses que se opunham à mecanização do trabalho, ou às novas tecnologias — e, durante o século XIX, atacava as fábricas e destruía os equipamentos com medo que tais equipamentos pudessem vir a substituir o trabalho humano e, assim, criar desemprego.

Além da possibilidade de substituir o trabalho humano, não conhecemos, ainda, as totais capacidades da IA. Qualquer tópico de investigação pode ser, na minha opinião, modelado pela forma de uma função sigmóide, quer isto dizer que inicialmente o interesse pela sua investigação é baixo. Com o passar do tempo, contudo, a curiosidade aumenta rapidamente até estabilizar. Ora, o problema da IA é que não sabemos, ainda, em que ponto desta linha sigmóide estamos, o que causa ansiedade na sociedade.

A IA permitiu, porém, progressos inéditos nas tecnologias médicas, na física e na biologia. Desta forma, tem dado provas que os avanços nesses campos ocorreram para o bem da humanidade. Se actualmente vemos carros com capacidade de condução autónoma, temos motores de pesquisa poderosos, sistemas de sugestão de conteúdos adaptados às nossas preferências e, mais recentemente, sistemas de diagnóstico da doença provocada pelo novo coronavírus com base nos sintomas, é tudo graças à IA.

Desenvolvo o meu trabalho de investigação doutoral em IA no BIESA (Bio-Inspired Expert Systems and Applications Laboratory), um laboratório integrado no Interactive Technologies Institute/LARSyS. Este laboratório é mais um exemplo da aplicabilidade da IA aos problemas da vida real da sociedade, uma vez que se dedica, utilizando IA, a desenvolver ferramentas relacionadas com energia, monitorização não invasiva de sono, e mais recentemente, no âmbito do projecto Marítimo Training LAB, com o controlo da prática desportiva objectivando a redução do risco de lesão.

Se o caminho percorrido pela IA já é longo, tendo começado com o desenvolvimento da Máquina de Turing por Alan Turing (1912–1954), acredito ainda que muito nos vai surpreender ao longo desta década. Isto porque há tarefas nas quais os sistemas de IA ainda não alcançam a eficácia e a eficiência dos humanos (tal como, reconhecimento de imagens). Entendo, também, que em paralelo, a ética da IA deva ser (ainda mais) discutida, e que devam ser criados programas de formação avançada a todos aqueles cujo trabalho se prevê vir a ser substituído por um sistema da IA. Esta última proposta permitirá alavancar a qualificação da mão-de-obra.

O leitor que não fique preocupado. Ainda estamos muito longe do protagonizado na obra Eu, Robô de Isaac Asimov.

Diogo Freitas
Estudante de Doutoramento na UMa.

Publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS DA MADEIRA, no âmbito da parceria com a ACADÉMICA DA MADEIRA.