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Alterações climáticas preocupam

Nível de educação aparece como o factor principal na identificação deste problema. A medida que mais simpatia conquistou foi a conservação das florestas e dos solos e a que menos apoio teve foi uma mudança para uma dieta à base de plantas.

A enorme crise mundial trazida pela pandemia da covid-19 não apagou a importância das alterações climáticas, nem fez com que as pessoas minimizassem este problema, continuando a considerá-lo uma emergência global. Foi essa, pelo menos, a resposta de 64% das pessoas àquele que é apresentado como o maior inquérito global alguma vez feito sobre o tema, abrangendo 1,2 milhões de pessoas em 50 países, não incluindo Portugal. Promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP, na sigla inglesa) e pela Universidade de Oxford, o inquérito chegou aos participantes através de jogos de telemóveis e mostrou que a educação é o factor mais relevante na percepção deste problema.

“Há uma enorme ligação entre o nível de educação e acreditar que as alterações climáticas são uma emergência global, e isto é algo muito poderoso. Não importa de onde se é, a idade ou o género, a educação é que é mesmo importante.” A constatação é de Cassey Flinn, da UNDP, que esta terça-feira apresentou os resultados do inquérito Voto da População pelo Clima realizado entre 7 de Outubro e 4 de Dezembro de 2020, em 17 línguas, e recorrendo a uma metodologia que permitiu chegar a uma diversidade enorme de pessoas, em concreto, àquelas que têm entre 14 e 18 anos e que não costumam participar nestas pesquisas.

Isto porque o inquérito era apresentado aos participantes de jogos online nos telemóveis, substituindo os habituais espaços de publicidade. A todos era perguntado se consideravam que as alterações climáticas eram ou não uma emergência climática e apresentado um conjunto de 18 medidas, em seis áreas de acção climática (economia, energia, transporte, alimentação e uso dos solos, natureza e protecção das pessoas), para tentar perceber quais as que os inquiridos consideravam prioritárias. “O objectivo é ligar as pessoas aos decisores políticos, dotando-os com informação credível”, explicam as duas instituições em comunicado. Cassey Flinn acrescenta: “Estamos num momento crucial. A forma como os países vão responder à emergência climática e à da covid-19 vai marcar o caminho de todos no futuro. Queremos levar as vozes das pessoas a esses decisores políticos, para que possam fazer verdadeiramente parte da solução”, diz.

E o que os decisores ficam agora a saber é que, globalmente, 64% dos inquiridos consideram que as alterações climáticas são, de facto, uma emergência global, com algumas nações mais afectadas – como as pequenas ilhas em via de desenvolvimento, designadas no inquérito pela sigla SIDS -, a atingirem os 74% e os países mais ricos a chegarem também a 72% de respostas nesse sentido.

Aumentar a ambição
Só esta resposta é já “uma chamada clara e convincente para os decisores políticos aumentarem a sua ambição”, referem as duas instituições, no momento em que os países estão a ultimar as Contribuições Nacionais Determinadas (NDC, na sigla inglesa), que guiarão as suas tentativas de cumprir os objectivos do Acordo de Paris. Mas há mais pistas deixadas pelo inquérito, uma das quais, intrigante.

É que às pessoas que disseram acreditar que vivemos uma emergência global ao nível do clima foi-lhes perguntado o que deve o mundo fazer para responder a essa emergência. Um universo considerável (41%) não achou prioritário fazer tudo o que fosse necessário e urgentemente para responder a essa emergência (esta resposta foi escolhida, ainda assim, por 59% dos inquiridos). De facto, 20% defendeu que devíamos agir lentamente, até que tivéssemos mais informação, 10% considerou que o que está a ser feito já é suficiente e 11% escolheu mesmo a opção “não fazer nada”. Como é que isto se explica?

No inquérito admite-se que estas respostas foram “de alguma forma surpreendentes” e que sugerem “que é preciso mais educação sobre as alterações climáticas”. Cassey Flinn, em resposta ao PÚBLICO sobre esta matéria, foi mais longe. “É uma resposta que reflecte muito as circunstâncias nacionais de cada país e também que as pessoas estão a pensar na escala em que se terá de actuar. Algumas pensam que estão em causa mudanças muito grandes e que é melhor pensar melhor no que precisamos de fazer e agir de forma mais lenta. Mas é, sem dúvida, uma área para mais pesquisa.”

As circunstâncias nacionais são visíveis também na percentagem maior ou menor com que as pessoas escolheram o que consideram ser as medidas prioritárias no combate à emergência climática. Globalmente, a medida que mais simpatia conquistou (54%) foi a que apela à conservação da floresta e dos solos, e a que menos cativou os inquiridos (apenas 30%) foi a aposta numa dieta à base de plantas. Mas há variações elucidativas quando se olha para os diferentes grupos em que os países foram reunidos na análise da Universidade de Oxford.

As SIDS, que mais sofrem as consequências das alterações climáticas, apoiam, em média, mais medidas do que os restantes países (dez em vez da média de oito, entre os que responderam a todas as questões); e os países com mais emissões de gases com efeitos de estufa provenientes da desflorestação e da alteração do uso dos solos colocam as medidas de protecção das florestas ainda mais no topo das suas preocupações – no Brasil, por exemplo, chegou a 60% das preferências.

Já no caso dos oceanos, a realidade de cada país também é muito relevante na importância que é dada às medidas que se prendem com a sua protecção. A proposta “manter os oceanos e as linhas de água saudáveis” foi a que teve um leque mais disperso de respostas, com 81% de apoio no Reino Unido e apenas 29% no Iraque.

Independentemente destas variações, uma coisa sobressai: a “mais profunda” influência quando chega a hora de considerar as alterações climáticas como uma emergência é a educação. Nos cidadãos que tinham estudos para lá do secundário, a percentagem dos que reconheciam este problema como uma emergência global situava-se, na grande maioria dos casos, acima dos 70% e chegava mesmo aos 90%, em Itália.

No final deste ano deverá haver uma segunda fase deste inquérito, abrangendo mais países. Portugal, que não foi incluído neste inquérito, poderá, eventualmente, ser incluído nessa nova pesquisa.​

Clique aqui para ler a notícia do Público de 27/01/2021.