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Massa das construções > biomassa

Os edifícios, as estradas ou os plásticos constituem a maior parte da massa dos objectos produzidos pela nossa espécie, segundo um estudo publicado na Nature.

O ano de 2020 pode ser o ponto de viragem em que a massa produzida pelos humanos ultrapassa a biomassa. Esta é a estimativa de um grupo de cientistas do Instituto de Ciência Weizmann, em Israel, publicada num artigo da edição desta semana da revista Nature. Nos últimos 100 anos, a massa dos materiais produzidos pela nossa espécie duplicou a cada 20 anos. Esta investigação pretende enfatizar os impactos cada vez maiores que temos na Terra.

É inegável: a humanidade tem-se tornado uma força dominante na Terra e tem vindo a aumentar a produção (e acumulação) de objectos feitos pelos seres humanos, que se designa por “massa antropogénica”. Num resumo sobre o trabalho, a equipa liderada por Emily Elhacham realça que, desde a primeira revolução agrícola, os humanos têm vindo a reduzir a biomassa. Se na altura era de cerca de duas teratoneladas (2.000.000.000.000 toneladas), agora já andará à volta de uma teratonelada. “O principal aspecto que tem causado uma diminuição na biomassa é a desflorestação”, destaca ao PÚBLICO Emily Elhacham.

A biomassa engloba a massa global de toda a matéria orgânica quer seja de origem vegetal quer animal, e que pode ser usada como fonte de energia. A grande maioria da biomassa é composta por plantas (cerca de 90%). Já a massa dos próprios humanos anda à volta de 0,01% da biomassa global, destaca-se no artigo. Aquilo que produzimos atinge valores bem maiores.

Para este trabalho, estimaram-se as mudanças na biomassa global e na massa antropogénica desde 1900 até à actualidade. Verificou-se assim que, no início do século XX, a massa de objectos produzidos pelos humanos era igual a cerca de 3% do total de toda a biomassa. Hoje a massa antropogénica pode ultrapassar o total da biomassa global (que é cerca de uma teratonelada) e calcula-se que seja de aproximadamente 1,1 teratoneladas. “Neste trabalho mostramos que a massa de todos os edifícios e infra-estruturas é maior do que a massa de todas as árvores e arbustos”, refere Emily Elhacham.

Ao longo do período estudado, observou-se que a biomassa foi diminuindo ligeiramente e que a massa antropogénica foi subindo rapidamente. Actualmente, a última está a ser produzida a uma taxa de 30 gigatoneladas (30.000.000.000 toneladas) por ano. Nesta investigação, apenas se fez uma estimativa global e não se calculou qual a contribuição de cada país para a massa antropogénica.

Estima-se também que o ano de 2020 marque o momento em que a massa produzida pelos humanos exceda a biomassa global. “No ano de 2020, a massa antropogénica, que tem duplicado recentemente a cada cerca de 20 anos, ultrapassará toda a biomassa global”, lê-se no artigo científico. A equipa alerta que é difícil saber qual o momento exacto em que isso acontecerá.

E o que contribuiu mais para a subida da massa antropogénica? Os edifícios e as estradas constituem a maior parte da massa dos objectos feitos pelos humanos, segundo a equipa. Os plásticos e as máquinas estão também nessa lista. “Mudanças na composição desta massa correspondem a tendências específicas na construção, como a mudança de tijolos para cimento nos edifícios desde meados dos anos 50 e o uso de asfalto na pavimentação das estradas nos anos 60”, refere-se no resumo. Também se detectaram momentos mais concretos ligados ao crescimento da massa antropogénica, como os contínuos aumentos na construção depois da Segunda Guerra Mundial.

Um aviso sobre 2040
“Este estudo dá-nos uma caracterização quantitativa e simbólica da massa antropogénica”, considera Emily Elhacham. “Dadas as provas empíricas da acumulação de massa dos objectos produzidos pelos humanos, não podemos negar mais o nosso papel central no mundo natural. Já somos um grande agente [transformador] e com isso vem uma responsabilidade partilhada.”

Por fim, há ainda um aviso para o futuro: se as tendências actuais se mantiverem, espera-se que a massa gerada pelos humanos ultrapasse as três teratoneladas em 2040. Sobre se ainda se poderá reverter esta situação, a investigadora diz que é um “desafio”. “Contudo, espero que uma crescente consciencialização possa promover mudanças comportamentais que poderão melhorar a situação e nos levem a um ponto de equilíbrio. Todos os passos nesta direcção terão um efeito positivo.”

Aurora Torres, especialista em massa antropogénica da Universidade Católica de Lovaina (na Bélgica) e que não participou no estudo, assinalou ao jornal espanhol El País que este estudo nos dá mais um indicador de que entrámos mesmo no Antropocénico, uma nova época geológica. Já Fridolin Krausmann, do Instituto de Ecologia Social da Universidade de Viena (na Áustria) e que também não fez parte do trabalho, considera: “Os resultados [deste trabalho] são muito sólidos.”

E pormenoriza: “Primeiro, [vê-se que] houve uma lenta, continuada e persistente descida da biomassa induzida pelos humanos. Segundo, existiu um crescimento rápido e exponencial da massa antropogénica. E, em terceiro lugar, já alcançámos ou estamos mesmo a chegar ao ponto de intersecção de ambas as tendências, onde a massa da sociedade supera a da biosfera.” O investigador realça que este trabalho não inclui todo o material já em desuso, obsoleto ou que foi convertido em lixo, o que poderia aumentar ainda mais os valores agora anunciados.

Clique aqui para ler a notícia do Público de 10/12/2020.