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Flora portuguesa ameaçada

Os resultados são “alarmantes”. A “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, publicada na última semana, conclui que há 381 espécies de plantas ameaçadas de extinção em Portugal continental e 19 espécies actualmente já extintas. O trabalho foi coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica e pela Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação – PHYTOS, em parceria com o ICNF.

“Os resultados da avaliação – que incidiu unicamente em cerca de um quinto da flora vascular de Portugal continental – são alarmantes”, lê-se na nota introdutória da “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, assinada por Miguel Porto e Ana Francisco, da Sociedade Portuguesa de Botânica.

Esses resultados revelam que “381 espécies de plantas foram avaliadas numa das três categorias de ameaça da UICN [União Internacional para a Conservação da Natureza] – Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR) – e 19 espécies foram consideradas extintas em Portugal, sendo que duas destas estão mesmo extintas a nível mundial”.

Os investigadores consideram “ainda mais alarmante” o facto de 84 das espécies ameaçadas se enquadrarem na categoria de ameaça mais grave [≪Criticamente em Perigo (CR)≫], o que quer dizer que “são espécies que estão mesmo à beira da extinção em Portugal e que, se as pressões e ameaças se mantiverem, irão provavelmente desaparecer no prazo de poucos anos”.

Acresce que “14 destas espécies ‘Criticamente em Perigo’ não foram sequer reencontradas no território durante os trabalhos de prospecção realizados, podendo estar já extintas”, avisam os especialistas.

“Tomar medidas urgentes”
“As causas deste cenário não surpreendem”, frisam Miguel Porto e Ana Francisco. Os investigadores da Sociedade Portuguesa de Botânica põem o dedo na ferida, afirmando que “a acção humana directa, nas suas mais variadas vertentes, encabeça a lista de ameaças identificadas que estão a contribuir para o declínio e a extinção de muitas espécies da nossa Flora”.

São exemplos dessa acção humana “os desenvolvimentos urbano e de infra-estruturas (principalmente no litoral), a expansão da agricultura industrial intensiva em larga escala (em vastas áreas do Alentejo e do Algarve, mas também no Oeste e Centro-Norte) e as más práticas de gestão da vegetação (como o uso de herbicidas e as desmatações recorrentes)”.

Estas e outras acções humanas, dizem estes especialistas na introdução desta “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, são “responsáveis pela destruição irreversível ou intensa degradação de vastas áreas de habitats naturais ou seminaturais, dos quais muitas das plantas ameaçadas dependem”.

E “o mais preocupante”, dizem, é que, “na generalidade dos casos, estas ameaças tenderão a aumentar ainda mais no futuro como reflexo do desenvolvimento económico de vários sectores”. Razão por que consideram “fundamental tomar medidas activas e urgentes, ao nível do ordenamento, para as conter ou reverter”.

Ministro sublinha “importância” da obra
“Sendo o actual ritmo de extinção das espécies no planeta, devido a acção humana sobre os ecossistemas naturais, maior do que em qualquer outro período da História, importa sublinhar a importância de obras, como esta Lista Vermelha, que nos instam a redobrar a atenção e o esforço para a conservação das espécies e dos seus habitats e que em simultâneo disponibilizam à sociedade, em geral, e aos Governos, em particular, ferramentas adequadas para agir sobre o território e para gerir as actividades humanas, visando travar a perda da biodiversidade, um activo do qual, em última análise, depende a nossa própria sobrevivência”.

A declaração é do ministro do Ambiente e da Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes, e consta do prefácio, que é da sua autoria, desta “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, acabada de disponibilizar no portal do projecto e cuja versão digital fica agora acessível para consulta e descarregamento em formato PDF.

A publicação, que tinha sido apresentada na conferência de apresentação pública dos resultados finais do projecto, a 13 de Outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, contém a síntese das fichas de avaliação das 381 espécies que se encontram ameaçadas de extinção e também das 19 espécies actualmente extintas em Portugal continental. É ainda parte integrante da colecção “Botânica em Português”, produzida por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa no âmbito da distinção de Lisboa como Capital Verde Europeia 2020.

As fichas de avaliação completas das 630 plantas avaliadas no âmbito do projecto serão agora disponibilizadas faseadamente durante o primeiro semestre de 2021 e ficarão acessíveis para consulta e descarregamento no portal de dados da Lista Vermelha da Flora Vascular.

O documento “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental”, com 374 páginas, foi coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica e pela Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação – PHYTOS, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Este instituto considera-a, aliás, “de enorme importância para o país, constituindo-se como um documento estruturante com ampla utilidade, nomeadamente no planeamento e gestão da conservação, no apoio à tomada de decisão, na elaboração de legislação orientada para a conservação da biodiversidade nacional, e ainda na definição de prioridades de investigação científica”.

Clique aqui para ler a notícia do Público de 28/10/2020.