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Cérebros, mães e decisões

Numa investigação relacionada com o consumo de drogas após o parto observou-se o que acontece no cérebro de ratos fêmea quando escolhem as suas crias em vez de cocaína, ou vice-versa.

O consumo de drogas após o parto é um problema que tem consequências nefastas tanto para a mãe como para os filhos. O que acontece então no cérebro quando uma mãe prefere (ou não) cuidar dos seus filhos? Esta foi a questão de uma investigação relacionada com o consumo de drogas após o parto liderada por cientistas de duas instituições científicas dos Estados Unidos. Para isso, fizeram experiências em fêmeas de ratos e viram que, quando se inactivava uma região do cérebro – o córtex infra-límbico –, esses animais diminuíam os seus comportamentos maternais. Num artigo publicado esta segunda-feira na revista científica eNeuro, sugere-se que, durante a maternidade, o cérebro “recrute” essa região cerebral para dar prioridade aos cuidados das suas crias em vez de certas dependências, como as drogas. Ou seja, observou-se como o cérebro de uma mãe controla determinadas decisões.

Este trabalho teve como mote o consumo de drogas no pós-parto. “O consumo de cocaína por mulheres após o parto é um problema de saúde grave que tem um impacto terrível na capacidade de as mães cuidarem adequadamente dos seus filhos, e tem consequências a longo prazo tanto para a mãe como para a criança”, referem as autoras no artigo científico. Tal como se destaca num resumo sobre o trabalho, no contexto do abuso de drogas, há provas que sugerem que o consumo de cocaína em mães de recém-nascidos é significativamente reduzido pela motivação que têm em cuidar dos seus filhos. Mas o que acontece no cérebro nesse momento?

Pelo que já se sabia de outros estudos, Mariana Pereira (da Universidade do Massachusetts) e Joan I. Morrell (da Universidade Estadual de Nova Jersey) julgaram que isso acontecesse no córtex pré-frontal medial, que, ao filtrar e reprimir diversos fluxos de informação, é crucial para as tomadas de decisão.

Através de anestesia local, estas duas cientistas inactivaram temporariamente diferentes regiões corticais pré-frontais de fêmeas de ratos. Depois, observaram se esses animais escolhiam salas relacionadas com as suas crias ou com cocaína. Antes de inactivarem certas regiões do cérebro, 40% dos ratos fêmea preferiram passar tempo numa sala associada a cocaína, 40% preferiu uma sala associada às suas crias e 20% escolheu uma sala neutra.

Mas, quando o córtex infra-límbico era inactivado, 78% dos ratos fêmea preferiam a sala da cocaína e nenhum escolhia a sala das crias. Já quando se bloqueava o córtex pré-límbico, 71% escolhiam a sala das crias e nenhuma elegia a sala da cocaína. “A inactivação do córtex infra-límbico também diminui os comportamentos maternais para as suas crias”, referem as autoras num comunicado sobre o trabalho.

Consequentemente, a equipa concluiu que, durante a maternidade, o cérebro recruta a acção do córtex infra-límbico para que a mãe possa dar prioridade aos cuidados dos seus filhos em vez de determinadas dependências, como as drogas. “Estes resultados dão-nos novas informações sobre como o cérebro das mães processa informação sobre os filhos e como essa informação é integrada para [ser usada em] tomadas de decisão enviesadas”, escrevem as autoras. “Considerando o grande impacto do consumo de cocaína na maternidade, tanto na saúde da mãe como na da criança, perceber como a motivação da mãe pode resistir ao consumo de droga é altamente pertinente.”

Clique aqui para ler a notícia do Público de 06/07/2020.