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Portugal com desflorestação abrupta

Paulo Fernandes, especialista em incêndios da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, diz que os processos de desflorestação em Portugal nos últimos anos devem-se “esmagadoramente” aos fogos florestais.

A área de desflorestação e perda de biomassa florestal aumentou 49% e 69%, respectivamente, na União Europeia (UE) entre 2016 e 2018 face ao período entre 2011 e 2015. A última edição da revista científica Nature revela que, em Portugal, se deu uma variação de 56% no ritmo da área desflorestada no período 2016-2018 em relação a 2004-2015. A estratégia florestal comunitária no pós-2020 pode estar em risco.

Na UE, as florestas representam aproximadamente 38% da superfície total da Terra. A Suécia, Finlândia, Espanha, França, Alemanha e Polónia são os Estados-membros com maiores superfícies florestais, embora a distribuição por país seja díspar. Na UE-28, os últimos dados (Dezembro 2019) do Eurostat indicam que havia, em 2016, cerca de 182 milhões hectares de florestas e outras terras arborizadas (5% da superfície florestal mundial).

Agora, imagens de satélite usadas para um estudo na revista Nature – de que Guido Ceccherini, do Centro Comum de Investigação, da Comissão Europeia, em Ispra (Itália), é o primeiro autor – revelam que, na Europa, e para o período de 2016-2018 em relação a 2011-2015, houve um aumento da área de desflorestação (49%), assim como um crescimento das perdas de biomassa (69%).

Maiores perdas na Península Ibérica
As maiores perdas ocorreram na Península Ibérica e nos países nórdicos e bálticos (Suécia, Finlândia, Polónia, França, Letónia, Portugal e Estónia). As imagens de satélite revelam ainda que a área média das superfícies desflorestadas “aumentou 34% em toda a Europa, com efeitos potenciais na biodiversidade, solo e erosão e na regulação da água”.

Guido Ceccherini e os seis demais participantes no estudo usaram dados de satélite em escala reduzida para avaliar as mudanças nas áreas de desflorestação e de cobertura florestal de um período total de 2004 a 2018 em 26 países da UE.

Em 21 dos 26 países da UE, a dimensão média das superfícies alvo de desflorestação aumentou mais de 44% no período analisado (2016-2018), sendo que Portugal e Itália exibem “um crescimento abrupto” (mais de 100%) dessa dimensão média em comparação com o período de 2004-2015.

Ao PÚBLICO, Guido Ceccherini diz que Portugal, sozinho, é responsável por “menos de 5%” da desflorestação dos últimos anos (2016-2018) na UE. Porém, só em Portugal, “observámos uma variação de 56% da área de desflorestação no período 2016-2018 em relação a 2004-2015”. Por outras palavras: “Se Portugal desflorestou 100 hectares de floresta por ano no período 2004-2015, de 2016 a 2018 desflorestou 156 hectares de floresta por ano.”

Segundo o estudo da Nature, o crescimento da desflorestação na Europa está relacionado com “a recente expansão dos mercados da madeira”. O problema é que, sobretudo nos países com maior actividade industrial (bioenergia e produção de papel), entre eles Portugal, o crescimento das áreas desflorestadas desafia o equilíbrio entre a procura de madeira e a necessidade de preservar o ecossistema.

Pior. Segundo o artigo na Nature, esta evolução pode mesmo pôr em causa a estratégia da UE contra a desflorestação e a favor do desenvolvimento de uma nova estratégia florestal da União no pós-2020. Isto, uma vez que as perdas adicionais de carbono das florestas resultantes dos abates de árvores deverão exigir reduções extra de emissões noutros sectores da economia, de modo a cumprir com os objectivos das Nações Unidas para atingir a neutralidade climática até 2050.

“Aumento repentino”
Os autores mostram ainda que a intensidade dos abates florestais foi “estável na maioria dos países europeus de 2004 a 2015”. Já nos anos de 2016 a 2018, deu-se “um aumento repentino”.

As conclusões apontam para “factores exógenos” à floresta (até 90%) como sendo os responsáveis pelas acções de desflorestação. Apenas em cerca de 10% dos casos o abate florestal é resultado do envelhecimento da floresta.

Guido Ceccherini diz que, quanto aos incêndios como possível causa para estes processos de desflorestação, “é difícil provar e quantificar uma conexão causal”. O fenómeno dos fogos, diz, foi “filtrado da nossa análise” a partir das imagens de satélite do sensor MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer).

Ao PÚBLICO, Paulo Fernandes, docente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e membro do Observatório Técnico Independente (OTI), criado pela Assembleia da República para os incêndios rurais, embora conheça “por alto” o estudo da Nature, diz que não tem dúvidas: as causas da desflorestação no nosso país nos últimos anos são “claramente os incêndios”. “Sim, esmagadoramente, eu diria. Há o problema do nemátodo, mas comparado com a área dos incêndios é marginal. Os incêndios é que têm esse peso todo na redução da área arborizada”, destaca o especialista em incêndios.

“A área florestal em Portugal tem diminuído desde os anos 1990, essencialmente por causa da redução da área ocupada pelo pinheiro-bravo devido à repetição de incêndios. Não só, mas cerca de 90% será isso. As outras espécies têm sido pouco afectadas. O eucalipto não é afectado e o sobreiro, a azinheira ou os carvalhos são espécies muito pouco afectadas [pelos fogos]”, nota Paulo Fernandes.

Também o último Inventário Florestal Nacional (IFN6) já apontava como como causas “os severos incêndios rurais de 2017 e de 2018 (Monchique)” e “a dinâmica própria dos ecossistemas florestais”.

Clique aqui para ler a notícia do Público de 03/07/2020.