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Pradarias marinhas capturam CO2

A Ocean Alive, a primeira cooperativa em Portugal dedicada à protecção do oceano, que tem o foco no rio Sado, em Setúbal, está a preparar uma recomendação ao ministro do Ambiente e Acção Climática e ao ministro do Mar, para a inclusão das pradarias marinhas e dos sapais no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, que recolheu já 500 assinaturas de vários especialistas portugueses e estrangeiros.

Os investigadores Rui Santos (do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve) e Ana Sousa (da Universidade de Aveiro), que trabalham em Portugal na quantificação do carbono azul capturado pelos sapais e pelas pradarias, são alguns dos nomes conhecidos que estão ao lado da bióloga Raquel Gaspar, fundadora da Ocean Alive. Tal como também está o biólogo português Carlos M. Duarte (da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na Arábia Saudita), cuja investigação olha para o oceano a nível global e defende a recuperação destes ecossistemas como uma das acções-chave para um oceano saudável, ou o cientista Tom Matthews (da Universidade de Loughborough, no Reino Unido), especialista em alterações climáticas e explorador da National Geographic.

Raquel Gaspar disse ao PÚBLICO que a entrega do documento – que pode ser lido e subscrito aqui – será feita no momento, ainda sem data, em que os ministros do Mar e do Ambiente visitarem, em conjunto, o estuário do Sado.

A recomendação para que as pradarias marinhas e os sapais integrem o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) defende a grande capacidade dos ecossistemas marinhos como sumidouros naturais dos gases com efeito de estufa, complementando o sequestro das florestas terrestres na redução de gases com efeito de estufa.

O Roteiro para a Neutralidade Carbónica é a estratégia nacional para que em 2050 o balanço entre as emissões de gases com efeito de estufa e a sua remoção da atmosfera seja nulo no país. O roteiro fixa os compromissos de Portugal no âmbito do Acordo de Paris de 2015, que tem como objectivo garantir que o aumento da temperatura média global do planeta, até ao final do século, não ultrapasse os 1,5 graus Celsius face aos valores pré-industrial.

De acordo com Raquel Gaspar, as pradarias marinhas juntamente com os sapais ocupam em Portugal uma área de 14 mil hectares, sendo capazes de absorver mais de 17 mil toneladas de carbono por ano.

As estimativas são “grosseiras” porque o cálculo da área foi realizado há mais de dez anos, mas os cientistas envolvidos asseguram que estes sistemas ecológicos são um importante complemento ao sequestro de carbono conseguido pelas florestas terrestres.

Não dispõem de números que permitam comparar a quantidades capturada do chamado “carbono azul” (pelos ecossistemas marinhos) com a de “carbono verde” (capturado pelas florestas), mas destacam que as pradarias e os sapais têm uma taxa de sequestro 40 vezes superior à dos ecossistemas terrestres.“Segundo o roteiro para a neutralidade carbónica, as florestas representam sumidouros de nove a 12 milhões de toneladas de carbono. Podemos assumir que precisaríamos de 40 vezes mais hectares de florestas para sequestrar por ano a mesma quantidade de carbono do que as pradarias e os sapais”, explica Raquel Gaspar. “Não quer isto dizer que, no total, as pradarias e os sapais sequestram mais carbono do que as florestas. Sequestram mais carbono por unidade de área e tempo, mas, como há muito mais área de floresta em terra, a estratégia que nos traz mais-valias é recuperar e valorizar os ecossistemas marinhos de carbono azul como sumidouros naturais de carbono que complementam o papel das florestas terrestres”, acrescenta a bióloga.

A recomendação ao Governo defende, por isso, a realização de uma “avaliação mais precisa” do potencial dos ecossistemas de carbono azul na costa portuguesa e, além de defender a sua inclusão no RNC2050, chama a atenção para o valor das pradarias marinhas. Estes sistemas são, no dizer de Raquel Gaspar, “um pacote de serviços gratuitos, que importa quantificar em dinheiro, para além da mitigação das alterações climáticas, como berçário do peixe e marisco que comemos, e porque filtram a água dos efluentes e protegem a costa da erosão”.

“O apelo da Ocean Alive surge da necessidade em ver reconhecida a grande eficácia das pradarias marinhas e dos sapais na remoção de gases de efeito de estufa da atmosfera, e o seu armazenamento a longo prazo nos sedimentos marinhos e estuarinos. Neste momento, o roteiro apenas considera as florestas terrestres como sumidouros naturais de carbono (verde). Mas os ecossistemas vegetados marinhos são excelentes sumidouros de carbono (azul) e, por isso, devem ser considerados nesta estratégia, complementando a função das florestas”, sintetiza Raquel Gaspar.

Durante as últimas décadas, Portugal perdeu grandes áreas de pradarias marinhas e de sapal devido a actividades humanas, resultando na libertação do carbono armazenado no sedimento e na perda do potencial futuro de remoção natural, considera ainda a fundadora a Ocean Alive. Um declínio que, defende esta especialista, pode ser revertido com a adopção de medidas de gestão que travem a sua degradação, uma vez que “o restauro dos sistemas degradados é possível e tem elevado retorno económico”.

Clique aqui para ler a notícia do Público de 25/05/2020.