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COVID faz reduzir emissões de CO2

Responsáveis pelo estudo publicado esta terça-feira alertam que dados resultam de uma situação temporária e que só terão verdadeiro significado se houver medidas estruturais que impeçam o regresso à situação pré-pandemia.

A pandemia da covid-19 teve um efeito “extremo” nas emissões diárias globais de dióxido de carbono (CO2), que no pico das medidas de confinamento chegaram a cair 17%. Este é o resultado de um estudo de uma equipa internacional de cientistas, cujas conclusões foram publicadas esta terça-feira na revista Nature Climate Change. Contudo, os cientistas deixam o aviso que não há qualquer indicação de que esta redução seja para manter e que o futuro, a este nível, vai depender de como os países irão sair do desconfinamento e de como serão geridos depois disso.

Meio mundo parou, à medida que a covid-19 se espalhava por vários países, e o planeta reparou. Milhares de voos ficaram por fazer, fecharam-se escolas, lojas, empresas e serviços públicos, foram proibidas aglomerações de pessoas e o confinamento obrigatório tornou-se uma realidade. Durante semanas os carros quase desapareceram das ruas de muitas cidades e o teletrabalho tornou-se a norma para milhões de cidadãos em todo o mundo. Tudo isto teve consequências, que os responsáveis pelo estudo ​“Temporary reduction in daily global CO2 emissions during the COVID-19 forced confinement” (“Redução temporária nas emissões diárias globais de CO2 durante o confinamento forçado da covid-19”), vêm agora contabilizar.

Sem dados em tempo real das emissões de CO2, os investigadores, liderados por Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), fizeram uma estimativa, assente na variação de actividade de seis sectores –​ energia, indústria, transportes à superfície, edifícios públicos, comércio, residências, aviação – e nas medidas de confinamento que foram sendo impostas por diferentes países e regiões. Foram analisados dados de 69 países responsáveis por 97% das emissões globais de CO2 e os resultados deixam uma perspectiva do que pode acontecer a estas emissões se alguns hábitos e comportamentos mudarem.

Olhando para dados diários desde 1 de Janeiro a 30 de Abril, e comparando com as médias de emissões de CO2 no mesmo período do ano passado, os responsáveis pelo estudo concluíram que a quebra global chegou a ser de 17%, no pico das medidas de confinamento, a 7 de Abril. Durante esse mês, os níveis de emissão caíram “para níveis que só foram vistos em 2006”, referem os autores. A análise dos diferentes sectores considerados também deixa pistas interessantes para políticas futuras, tendentes à redução de emissões de CO2.

Assim, é possível perceber que o sector isolado que mais contribuiu para a quebra dessas emissões foi o transporte rodoviário. As ruas vazias de trânsito tiveram consequências bem mensuráveis, com os investigadores a estimarem que 43% da quebra de emissões detectada veio exclusivamente da diminuição drástica do uso deste tipo de transporte. Outro tanto é consequência da travagem a fundo conjunta da indústria e do consumo de energia, enquanto o sector da aviação, que foi o mais afectado pelo confinamento dos seis analisados (com uma redução de actividade de 75%), foi responsável pela diminuição de 10% das emissões de CO2 durante a pandemia.

Em contra-corrente, como também seria esperado, houve um aumento das emissões provenientes das residências, mas o valor foi “marginal” e sem grande expressão nos resultados globais.

Com base nos resultados obtidos, os responsáveis pelo estudo projectaram o que poderá ser a redução anual de emissões neste ano de 2020, tecendo diferentes cenários sobre o que aí vem em termos de medidas de confinamento. E concluíram que se os países retomarem a “normalidade” ao nível da mobilidade e da actividade económica em meados de Junho, o mundo chegará ao final do ano com uma redução de emissões de CO2 a rondar os 4%. Se algumas medidas restritivas se mantiverem até ao final do ano, esse valor pode subir até cerca de 7%. “Esta quebra anual é comparável à redução de emissões anuais necessária todos os anos, ao longo de décadas, para se atingir os objectivos do Acordo de Paris”, lê-se no documento.

As boas notícias param por aqui. No comunicado que acompanha a divulgação do estudo, Corinne Le Quéré, professora de ciência das alterações climáticas, alerta que foi o confinamento da população que levou “a mudanças drásticas no uso de energia e nas emissões de CO2”. Ou seja, uma situação temporária e que não aponta, de todo, para algum tipo de política sustentada e estrutural que permita antever alguma continuidade da redução encontrada. “O valor que os líderes mundiais derem às alterações climáticas ao planearem as respostas económicas à covid-19 vai influenciar os caminhos das emissões globais de CO2 nas próximas décadas”, explicou.

E o estudo tem dados que corroboram esta afirmação. Segundo o documento, em 2009, em plena crise financeira e económica, a quebra anual de emissões de CO2 chegou aos 1,4%, mas os estímulos agressivos à economia que se seguiram fizeram com que em 2010 visse um aumento de emissões de 5,1%. Depois disso, “as emissões regressaram rapidamente ao seu percurso anterior, como se a crise não tivesse ocorrido”, atesta o documento.

Os responsáveis pelo estudo juntam-se a todos os que já defenderam que esta é a altura para não cometer o mesmo erro, e para se olhar para os previsíveis estímulos à actividade económica, também de uma perspectiva ambiental. “Existem oportunidades para se fazerem mudanças reais e duradouras e sermos mais resilientes a crises futuras, implementando pacotes de estímulos económicos que também ajudem a alcançar as metas climáticas, especialmente ao nível da mobilidade, que representa metade da queda de emissões durante o confinamento”, defende a investigadora.

O caminho deverá passar pela valorização do transporte em meios suaves, como as bicicletas, e também por apoios, quando possível, a quem possa fazer os percursos necessários a pé. A continuação, quando possível, do teletrabalho e uma redução no consumo (não tão drástica como a que foi forçada pela pandemia) podem ajudar também a que os dados agora revelados não sejam apenas um marco no tempo rapidamente esquecido. E, nunca, defendem os autores, a necessidade de pôr a economia a mexer deve ceder à tentação de adiar as políticas em curso que visam a redução de emissões de gases com efeito de estufa a nível mundial.

Em jeito de estímulo à realização de políticas estruturais que levem à diminuição consistente de emissões de CO2, os autores deixam a sua estimativa para o que a pandemia trouxe ao planeta: até ao final de Abril, houve menos 1048 milhões de toneladas de CO2 emitidas em todo o mundo. As maiores mudanças aconteceram na China – o país onde a covid-19 primeiro se manifestou e onde as medidas de confinamento começaram mais cedo –, com uma diminuição de 242 milhões de toneladas de CO2, nos Estados Unidos (menos 207 milhões de toneladas), na Europa (menos 123 milhões de toneladas) e na Índia (menos 98 milhões de toneladas).

Clique aqui para ler a notícia do Público de 19/05/2020.