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Erasmus contranatura

“A prevenção é melhor do que a cura”

─ frase habitualmente atribuída a Erasmo de Roterdão

No dia 25 de Fevereiro cheguei a Maribor, cidade situada no norte da Eslovénia, onde realizo o meu semestre lectivo, no âmbito do programa de mobilidade Erasmus+. Na primeira semana, estando a actividade lectiva a decorrer normalmente, os alunos estrangeiros ficaram a conhecer a Universidade e as suas faculdades. Nas duas semanas seguintes tive aulas presenciais e algumas pequenas apresentações dos professores e das minhas unidades curriculares.

Tudo começou a ficar diferente quando a Universidade de Maribor começou a tomar algumas medidas de prevenção, como a instalação de desinfectantes em todos os seus edifícios, o desaconselhamento das deslocações às faculdades para estudar e o cancelamento de algumas aulas presenciais devido ao aparecimento dos primeiros casos do novo coranavírus na cidade. Tanto da Universidade de Maribor e da Universidade da Madeira (UMa), recebi desde cedo várias informações acerca do SARS-CoV-2 bem como em que moldes o leccionamento das aulas iria continuar. Neste momento, tenho aulas por videoconferência, em Inglês, e os prazos de entrega para os trabalhos e projectos mantêm-se. Em relação aos exames escritos, contudo, não existe ainda uma resposta, uma vez que ninguém sabe quando a situação estará controlada e nem sabem qual a solução que devem adoptar.

Alguns dias depois da Universidade de Maribor aplicar as medidas anteriores, o Governo Esloveno declarou estado epidémico e aplicou um conjunto de medidas: apelou a realização de quarentena para toda a população; as fronteiras passaram a estar totalmente fechadas para a Itália — devido ao aumento drástico do número de casos — e muito condicionadas para as restantes fronteiras; e ainda outras medidas como o encerramento das instituições de ensino, o apaziguamento da vida pública e o fecho de todos os restaurantes, os cafés e as lojas de retalho.

Alguns dias mais tarde, contactei a coordenadora do programa Erasmus+ na UMa para esclarecer algumas dúvidas referentes à bolsa de mobilidade e saber quais eram as recomendações da Universidade aos alunos que estavam no estrangeiro. A resposta foi a que esperava: evitar ao máximo realizar viagens e permanecer em isolamento, excepto se fosse da nossa intenção regressar à Madeira com a opção de cancelar o programa de mobilidade. Ninguém nos proibia, mas teríamos de seguir todas as exigências e recomendações das autoridades de saúde e informar a UMa o mais breve possível.

Com toda esta informação, teríamos de tomar uma decisão o quanto antes: marcar viagem para regressar a Portugal ou permanecer na Eslovénia sem saber o que nos esperava. Eu e mais uma colega, decidimos comprar a passagem para Lisboa por entendermos que era o momento ideal para regressar e saberíamos que quantos mais dias passasse, mais complicado seria para regressar. Mas, (in)felizmente, em menos de 24 horas tivemos de cancelar as passagens devido à não realização de viagens dos autocarros para o aeroporto. Conheci, entretanto, alguns estudantes portugueses que conseguiram chegar ao aeroporto por comboio e, consequentemente, regressar a Portugal. Continuam, tal como eu, a assistir às vídeo-aulas e a realizar os trabalhos das unidades curriculares da Universidade de Maribor, pois não cancelaram o seu programa de mobilidade. Ou seja, apenas regressaram para estar próximos dos seus, o que era a minha intenção quando tentei voltar à minha ilha.

É, sem dúvida, complicado estar longe da nossa família, com a agravante de vivermos sozinhos uma situação avassaladora como esta que afecta o mundo inteiro. Nestas últimas semanas, só tenho me ausentado da residência para ir até ao supermercado ou à farmácia, onde pelo caminho apercebo-me de uma cidade vazia, sem esplanadas, com praticamente todas as lojas fechadas e onde encontrar outras pessoas na rua é um grande feito. Apesar de neste momento não ser possível aproveitar a experiência de intercâmbio como esperava, no momento em que chegamos aqui foi possível conhecer vários pontos desta linda cidade e ainda fazer uma pequena viagem de três dias por vários pontos belíssimos da Eslovénia como o Lago Bled, o castelo de Predjama, a cidade de Piran e ainda as cavernas de Postjana.

Todos os dias aqui são diferentes, o nosso grupo de madeirenses tenta sempre entreter-se de diversas formas para que ninguém se sinta triste ou sozinho, já formamos novas amizades com pessoas de outras nacionalidades dentro da residência e experienciámos vários bons momentos. Se esperava que ao fazer Erasmus iria estar em isolamento? Não, mas é a atitude mais responsável que temos a fazer para a nossa protecção e, principalmente, para salvaguardar todos.

Notícia do JM Madeira de 31/03/2020.