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Viriato e Lusitânia no Espaço

O exoplaneta agora baptizado foi descoberto por uma equipa liderada pelo astrofísico português Nuno Santos.

Para comemorar o 100.º aniversário da União Astronómica Internacional (IAU, na sigla em inglês), mais de 110 países organizaram campanhas nacionais para atribuírem nomes a exoplanetas e às suas estrelas hospedeiras. Os resultados desta iniciativa, a IAU100 Name ExoWorlds (Dê Nome a ExoMundos, em português), foram anunciados esta terça-feira numa conferência em Paris. Em Portugal, os nomes escolhidos foram Lusitânia (para a estrela) e Viriato (para o exoplaneta). Esta proposta partiu, de forma independente, de três escolas de Braga, Pombal e da Maia.

“Observações astronómicas durante a última geração levaram já à descoberta de mais de 4000 exoplanetas em órbita de outras estrelas que não o Sol – os chamados exoplanetas”, assinala Eric Mamajek, co-presidente do comité de direcção do concurso NameExoWorlds. “Apesar de os astrónomos catalogarem as suas novas descobertas usando designações como números de telefone, a verdade é que tem vindo a notar-se um interesse crescente tanto da parte dos astrónomos como do público para se atribuírem nomes ‘a sério’, tal como se faz para corpos do [nosso] sistema solar.”

Como a IAU é a entidade responsável por atribuir nomes e designações oficiais a corpos celestes, as celebrações dos seus 100 anos de existência foram a ocasião ideal para dar a todos a oportunidade de nomear um exoplaneta e a sua estrela. Os nomes vencedores serão usados com a nomenclatura científica.

Para cada país escolheram estrelas brilhantes o suficiente para serem observadas através de pequenos telescópios nesses territórios. A Portugal, a IAU atribuiu o sistema planetário HD 45652, que se situa na constelação do Unicórnio a 117 anos-luz da Terra. A estrela é uma anã vermelha e o planeta extra-solar – o HD 45652 b – é um gigante gasoso com cerca de 47% da massa de Júpiter. Situado muito mais perto da sua estrela do que Júpiter do Sol, o HD 45652 b demora 44 dias para completar uma volta em redor da sua estrela. Este sistema foi descoberto em 2008 por uma equipa liderada por Nuno Santos, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

Em Portugal, a iniciativa foi organizada pelo Núcleo Interactivo de Astronomia (Nuclio) com o apoio da Sociedade Astronómica Portuguesa. Primeiro, 65 propostas de escolas, universidades ou clubes de astronomia foram recolhidas através de um formulário online.

Depois, o comité nacional do concurso – que seguiu a metodologia do comité da direcção do IAU100 Name ExoWorlds – seleccionou as oito melhores sugestões, que foram em seguida submetidas a votação. O comité nacional é composto por André Moitinho de Almeida (Universidade de Lisboa), Gustavo Rojas e Rosa Doran (ambos do Nuclio), João Gregório (astrónomo amador português do Grupo da Atalaia) e Margarida Serote Roos (representante da Rede de Divulgação Científica do Observatório Europeu do Sul em Portugal).

Entre as opções de nomes estavam Boa Esperança e Adamastor; Lusa e Floripes; Lusíadas e Tongoenabiago; Lusitânia e Viriato; Nabia e Turiaco; Sagres e Astrolábio; Saudade e Fado​; ou Tágide e Caravela. Esta votação teve mais de 5000 votos.

Acabou por vencer Lusitânia (uma homenagem ao antigo nome da região Ocidental da Península Ibérica, onde está parte de Portugal) e Viriato (líder dos povos lusitanos). Os dois nomes foram propostos, de forma independente, pela Escola Secundária Carlos Amarante (em Braga) e pela Escola Básica Gualdim Pais (em Pombal). Já o Agrupamento de Escolas do Castelo da Maia sugeriu também a designação Lusitânia para a estrela.

A paixão dos exoplanetas
Na Escola Secundária Carlos Amarante, a participação nesta actividade partiu de Maria Deolinda Campos, professora de Física e Química. “Sou uma apaixonada por exoplanetas”, confessa, contando que colecciona notícias sobre os planetas extra-solares. Como a exploração espacial faz parte do programa de 11.º ano, promoveu esta actividade numa das turmas e lá escolheram os dois nomes. Além disso, foram motivados pelo anúncio do Prémio Nobel da Física deste ano atribuído a James Peebles, pelas descobertas teóricas em cosmologia física, e a Michel Mayor e Didier Queloz, pela detecção do primeiro exoplaneta em 1995.

“Acabei por contagiar os meus alunos e até tomo o pequeno-almoço a ler sobre exoplanetas”, conta a professora. Agora espera que Nuno Santos – de quem já assistiu a palestras – goste dos nomes escolhidos.

Já na Escola Básica Gualdim Pais, a iniciativa partiu do departamento de Físico-Química. Este grupo decidiu fazer um concurso na escola em que, através de voto secreto, se sugeriu um nome para uma estrela e outro para um exoplaneta. Participaram à volta de 80 alunos. Por fim, os professores escolheram os nomes.

“Este tipo de actividade é uma mais-valia. Os alunos têm um pouco de aversão às ciências experimentais, porque as relacionam com a matemática e estão sempre a perguntar: ‘Onde vou aplicar isto?’, refere Lília Querido, professora de Físico-Química e uma das responsáveis por esta iniciativa naquela escola de Pombal, assinalando que os alunos puderam assim ver uma aplicação do que é ensinado nas aulas. “Quando os nomes passaram para a votação, os alunos ficaram muito entusiasmados. Afinal, era a escola deles que estava a concorrer.”

Também noutros países os nomes escolhidos estão relacionados com a cultura dessa nação. Por exemplo, na Irlanda foram escolhidos nomes dos cães mitológicos Bran e Tuiren; na Jordânia venceram Wadi Rum e Petra, nomes de antigas cidades e áreas protegidas do Sul desse país; na Malásia foram seleccionados Baiduri e Intan, nomes de pedras preciosas na língua malaia; e na Argentina foram escolhidos Naqaya e Nosaxa, que significam, respectivamente, “irmão-família-parente” e Primavera na língua da comunidade indígena Moqoit. Em todo o mundo, houve mais de 360.000 nomes propostos e a iniciativa teve a participação directa de mais de 780 mil pessoas.

Notícia do Público de 17/12/2019.