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O bem-estar financeiro em Portugal

Estudo anual com 24 países europeus faz retrato preocupante. O bem-estar financeiro em Portugal é dos piores.

Portugal fica no sétimo lugar a contar do fim, numa lista de 24 países europeus, no que toca ao bem-estar financeiro. A lista é liderada pela Alemanha, Áustria e Suécia. No fundo da tabela ficam Grécia, no último lugar, precedida da Lituânia e da Polónia.

A tabela baseia-se na resposta de 24 mil consumidores europeus sobre a capacidade de pagarem as contas a tempo, a aquisição de crédito, as poupanças e a literacia financeira. Portugal fica abaixo da média europeia. O retrato nacional é preocupante. E o europeu não é muito melhor, em termos gerais.

“Apesar das melhorias na economia nacional, os consumidores portugueses continuam a debater-se com dificuldades para saldar contas e 61% dos inquiridos admitem que a preocupação com as contas afecta negativamente o bem-estar financeiro deles. É a segunda taxa mais elevada na Europa, logo após a da Grécia”, aponta o relatório de 2019, divulgado nesta quinta-feira.

O PIB per capita português, em 2018, foi de 19.600 euros, bastante abaixo dos 30 mil euros da média europeia. A taxa de desemprego usada pelos autores do estudo é a do ano passado, 7% em Portugal e 6,8% na UE.

A situação portuguesa no Relatório sobre Pagamentos dos Consumidores Europeus feito anualmente pela Intrum AB (uma empresa sueca de gestão recuperação de créditos, ela própria criticada por associações de defesa do consumidor devido aos métodos que utiliza), pode resumir-se numa série de conclusões pouco animadoras: piores que nós a pagar contas a tempo só os gregos; somos dos europeus que menos poupam; não estamos tão mal no crédito para pagar contas; e na literacia financeira, ou seja, em termos de dominar os termos básicos das finanças pessoais e de compreender os cálculos, ficamos na média europeia.

Quando se fala de contas, alude-se a responsabilidades com despesas como gás, electricidade e água, ou Internet, comunicações e saúde, bem como rendas de casa, empréstimos bancários (habitação e consumo) e educação dos filhos.

Detalhando a análise, 28% dos inquiridos em Portugal disseram que, nos últimos 12 meses, não conseguiram pagar contas a tempo pelo menos uma vez. Este indicador mede a capacidade de saldar dívida, a proporção do salário que resta após o pagamento das contas mensais e o rendimento bruto disponível per capita nas famílias portuguesas.

Até é uma percentagem baixa no quadro dos 24 países envolvidos no estudo, comparando com os 61% da Grécia, que está na pior situação, ou da Noruega, onde 48% admitiu que falhou pelo menos uma vez o pagamento atempado.

O problema é que Portugal tem uma das taxas mais elevadas de pessoas que dizem que a falha de pagamento é recorrente: 47%. E a razão mais citada para explicar essas falhas é a falta de dinheiro (56%), seguido de esquecimento (35%).

O que significa que no indicador composto, que leva em conta o pagamento, o rendimento disponível e o que sobra do salário depois de se saldar as responsabilidades mensais, Portugal cai para o penúltimo lugar. Pior só a Grécia.

Há também 47% de consumidores que dizem que a preocupação com as contas lhes tira bem-estar financeiro e 44% acredita que as contas aumentam mais rapidamente do que o rendimento.

Em matéria de crédito, 27% dos respondentes declararam que contraíram empréstimo para pagar contas, nos seis meses anteriores, ou que esgotaram o limite do cartão de crédito com esses pagamentos. Fica acima da média europeia (24%) mas é o oitavo país no ranking da liberdade face ao crédito. Por outras palavras, significa que o peso do endividamento é mais baixo do que na maioria dos países ricos e da média europeia.

Holanda, Dinamarca e Alemanha no extremo oposto, são exemplos de países onde o peso da dívida é maior. Porém, o relatório nota que este recurso ao crédito “não está a gerar riscos ou a comprometer o bem-estar financeiro”, ao contrário do que sucede noutros países na Europa Central e de Leste, onde o hábito do endividamento está a crescer.

Oitenta e um por cento dos portugueses inquiridos afirmam que conseguem poupar algo todos os meses, o que fica acima da média europeia de 75%, mas 61% está insatisfeito com o que conseguem pôr de lado. Sendo que as razões mais citadas por portugueses para fazer poupanças são “eventos inesperados” e “perda de emprego”. Pelo contrário, as razões de poupança menos citadas são para educação e para compra de habitação.

A família e os amigos tornaram-se as principais fontes de empréstimos para pagar contas no último ano em Portugal, com a banca e as instituições privadas de crédito a perderem peso.

Os portugueses são também os mais pessimistas no que toca à conjuntura internacional: 64% dos inquiridos dizem acreditar que uma União Europeia enfraquecida terá um impacto negativo nas finanças pessoais. Na Grécia, essa proporção é de 63%, em Espanha é de 62% e, em contraste, nos países nórdicos, na Suíça e na República Checa teme-se menos essa influência negativa.

Por fim, na literacia financeira, a educação que se tem em casa é a que mais pesa em Portugal, onde 66% diz que aprende com os pais (na UE a média é 51%) e 51% aponta para a escola (41% na UE). Segue-se a Internet (36%) e só depois a banca, que em Portugal obtém um resultado que merece destaque. É a única fonte de literacia financeira que perde na comparação com a UE. Por outras palavras, todas as fontes de formação e informação são mais importantes para os portugueses do que para a média dos europeus, com excepção da banca, que conta pior em Portugal do que no resto do continente.

Publicado em Público, 28 de Novembro de 2019.