O que os animais nos podem ensinar
5 de Novembro de 2019.
Relatório de Saúde 2019 da OCDE
7 de Novembro de 2019.
Mostrar Tudo

Fósseis de criatura em Portugal

Há cerca de 480 milhões de anos, um grupo extinto de artrópodes marinhos – da família de insetos e crustáceos – agrupou-se em fila para atravessar o fundo do oceano.

Há quase 500 milhões de anos, criaturas marinhas semelhantes aos percevejos da atualidade já tinham o seu próprio ritual social. Os fósseis recém-descritos revelam grupos de animais espalhados pelo fundo do oceano, todos alinhados, talvez para migrar em grupo, ou em reuniões de acasalamento. De acordo com dados apresentados pelos investigadores na Scientific Reports, os fósseis confirmam que os animais começaram a coordenar os seus movimentos no início da história evolutiva da Terra.

Há cerca de 520 milhões de anos, as primeiras formas de vida desenvolveram órgãos sensoriais sofisticados, como antenas e olhos, para além de cérebros capazes de processar os dados recolhidos. Estes desenvolvimentos permitiram aos animais sentir e agir em uníssono.

Os fósseis recém-descritos, que datam de há 480 milhões de anos, preservam vários Ampyx priscus, um tipo de criatura marinha chamada trilobite que viveu onde hoje ficam França e Marrocos, incluindo Portugal. Surpreendentemente, estes fósseis preservam fileiras de animais cegos, com grande parte das trilobites individuais viradas na mesma direção.

“Isto mostra que o comportamento coletivo não é uma inovação evolutiva que surgiu há alguns milhões de anos”, afirma o autor principal do estudo, Jean Vannier, paleontologista na Universidade de Lyon. “Isto é muito mais antigo, remonta aos primeiros eventos de bio-diversificação da vida animal.”

As trilobites são um grupo extinto de artrópodes marinhos com ligações aos insetos, às aranhas e aos crustáceos da atualidade. Nas Bahamas, as lagostas-espinhosas migram atualmente em linhas semelhantes, dependendo em parte das variações subtis no campo magnético da Terra para se orientarem.

“Geralmente, quando estamos a ver documentários sobre a natureza… que documentam todos os tipos de comportamentos em diferentes grupos de animais, não costumamos pensar sobre as origens desses comportamentos”, diz John Paterson, paleontologista na Universidade de Nova Inglaterra, na Austrália, que fez a revisão do estudo. “É fascinante que coisas como o comportamento fiquem preservadas no registo fóssil.”

Filas curiosas

Assemelhando-se superficialmente aos percevejos da atualidade, as trilobites desempenharam um papel importante na antiga história da Terra. Este grupo surgiu há pelo menos 521 milhões de anos e durou até há cerca de 252 milhões de anos, sucumbindo apenas à pior extinção em massa da história da Terra. Ou seja, ocuparam o planeta mais tempo do que os dinossauros não-aviários.

Durante esse período, as trilobites diversificaram-se consideravelmente. Algumas no norte de Portugal tinham mais de 60 centímetros de comprimento; outras tinham espinhos curvos que provavelmente eram usados para dissuadir os seus predadores. E tal como demonstrado por outras investigações, as trilobites reuniam-se regularmente em grupos para acasalar, alimentar e possivelmente como mecanismo de defesa.

Porém, na maioria dos fósseis encontrados de aglomerados de trilobites, as criaturas estão viradas em direções aleatórias – e é por isso que as linhas em fila única das Ampyx se destacam. Em 2008, dois investigadores especularam que os aglomerados se formavam quando várias Ampyx entravam numa toca para evitar um predador. Mas quando Jean Vannier e a sua equipa examinaram os fósseis escavados perto de Zagora, em Marrocos, não encontraram vestígios de tocas.

“Acho que é uma espécie de prego no caixão para a teoria das tocas”, diz Paterson. Em vez disso, os investigadores acreditam que as filas de Ampyx marchavam pelo fundo do mar até que os sedimentos de baixo oxigénio, agitados pelas ondas das tempestades, as enterrassem rapidamente.

Se assim for, como é que estas criaturas sem olhos se alinhavam? As trilobites têm três espinhos distintos, um virado para a frente e dois para trás, e em muitos dos fósseis recentemente descritos, os espinhos das Ampyx adjacentes estão a tocar uns nos outros. A equipa de Jean suspeita que os animais podem ter usado os espinhos para se detetarem fisicamente enquanto marchavam. E também é possível que as trilobites detetassem as secreções químicas umas das outras.

Apesar da análise detalhada, alguns aspetos dos fósseis desafiam a explicação. Por exemplo, em alguns fósseis, outros tipos de trilobites diferentes parecem estar ocasionalmente a juntar-se à fila. Não se sabe porque razão outras espécies de trilobites entrariam oportunisticamente noutros grupos, ou se o seu alinhamento estranho se deve a uma coincidência no registo fóssil.

Jean diz que podem existir sinais ainda mais antigos de grupos semelhantes, algo que pode ajudar a resolver este mistério. Em 2008, os cientistas revelaram fósseis com 525 milhões de anos que preservam alinhamentos de criaturas semelhantes a camarões agarradas umas às outras. Os paleontólogos interpretaram o fóssil como um agrupamento que flutuava livremente pela água – mas Jean suspeita que, tal como as Ampyx, estas criaturas andavam em fila pelo fundo do oceano.

“É um exemplo muito intrigante de comportamento de grupo”, diz Jean Vannier.

Publicado em National Geografic,  31/10/19