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Mais um vírus eliminado no mundo

Doença responsável por paralisia infantil tem três tipos de vírus. Organização Mundial da Saúde anuncia que o tipo 3 está erradicado. Falta só eliminar o tipo 1, ainda presente no Paquistão e Afeganistão para erradicar por completo a poliomielite.

Está erradicado do mundo mais um de três tipos do vírus da poliomielite, doença infecciosa responsável pela paralisia infantil. O anúncio é feito esta quinta-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS): o tipo 3 deste vírus foi eliminado. Fica assim percorrido mais de meio caminho para acabar com a doença no mundo. Ainda existem duas bolsas — Afeganistão e Paquistão — que têm o vírus tipo 1 a circular.

A poliomielite é provocada por três tipo vírus: tipo 1, tipo 2 e tipo 3. “Foi possível erradicar — eliminar em todo o mundo — o poliovírus de tipo 2 em 2015 e agora o poliovírus de tipo 3. É um marco importantíssimo e OMS vai anunciá-lo no dia Dia Mundial do Combate à Pólio”, que se assinala esta quinta-feira, revelou ao PÚBLICO a directora-geral da Saúde, Graça Freitas.

“Foi dado um passo importantíssimo para a erradicação do vírus da poliomielite. Restam duas bolsas no mundo, no Afeganistão e no Paquistão, provocadas pelo vírus de tipo 1”, explicou. Se for possível erradicar este tipo de vírus da poliomielite nestes dois países, “daqui a três anos, se tudo correr bem, vai acontecer o mesmo que aconteceu com a varíola em 1980”. “É a erradicação total de uma doença”, salientou a responsável. O que tornaria esta a segunda doença erradicada no mundo.

“Não sabemos se vai acontecer. Aquelas zonas do globo são zonas de conflito armado, de pobreza extrema e imensos problemas e não é fácil. Se não fossem os conflitos armados, conseguir-se-ia”, reforçou a responsável da Direcção-Geral da Saúde, lembrando que estas são zonas de “dificílimo acesso” e onde já se registaram ataques a equipas de vacinação de organizações não-governamentais.

Para que um vírus seja considerado erradicado, é preciso que não circule há pelo menos três anos desde o último caso diagnosticado. Graça Freitas explica que o vírus de tipo 3 da poliomielite não está em circulação há cerca de sete anos.

“Todos os casos de pólio que se têm verificado nos últimos anos foram em África – há uma parte da África subsariana, como por exemplo a Nigéria, em que foi possível eliminá-lo agora — e no Afeganistão e no Paquistão, que têm tido consistentemente casos.”

Outro desafio será o transporte e manutenção das próprias vacinas. No ano passado uma equipa de cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (Estados Unidos) criou uma vacina injectável contra a poliomielite que não necessita de refrigeração que se revelou eficaz em ratinhos.

Desafio internacional

O vírus da poliomielite infecta normalmente crianças com menos de cinco anos e pode destruir neurónios responsáveis pela activação dos músculos, deixando as pessoas paralisadas de uma perna ou de mais membros. A doença foi descrita em 1789, mas só no século XX é que os surtos de poliomielite assustaram os Estados Unidos e a Europa.

Graça Freitas lembra que o desenvolvimento das vacinas para esta doença na década de 1950 “foi uma coisa milagrosa”. “O grande impulso da investigação das vacinas veio dos Estados Unidos e a pessoa que mais incentivou esta investigação foi o Presidente americano Roosevelt, que morreu antes de ver as vacinas.”

Desde 1988 que existe uma campanha para a erradicação da doença. O plano da iniciativa era ter o vírus da poliomielite eliminado no ano 2000. O Rotary International Club tem sido um importante financiador das campanhas internacionais de vacinação, assim como a Fundação Bill & Melinda Gates e a Unicef. Também existem vários países doadores, onde Portugal se inclui, e personalidades individuais que também contribuem financeiramente para o combate à doença.

“A poliomielite é uma espécie de desafio internacional, porque não há muitas doenças que se consigam erradicar. Só é erradicável uma doença cujo único hospedeiro do vírus é o homem. Se vacinarmos em massa, acaba-se com a transmissão. Foi isso que se conseguiu com a varíola e outro candidato era o sarampo”, referiu Graça Freitas.

Apesar do trabalho difícil em relação à poliomielite, importantes conquistas têm sido feitas nas últimas décadas. Por exemplo, no conjunto dos 53 países que fazem parte da Região Europeia da OMS, os vírus foram considerados eliminados em 2002. Portugal alcançou essa marca muito antes, em Dezembro de 1989, três anos depois do último caso diagnosticado.

Foi com a vacina da poliomielite que o Programa Nacional de Vacinação (PNV) português teve início em 1965. “Tivemos uma campanha brutal no início do PNV. A vacinação em massa, com mais de três milhões de doses dadas num ano, a crianças entre os zero e os nove anos de idade, foi para nós um milagre.

A pólio praticamente desapareceu num ano. Entre a década de 1950 e até 1965, tínhamos em média cerca de 300 casos de paralisia infantil por ano e cerca de 30 mortes. A maior parte destes casos acontecia nos primeiros três anos de vida. Era terrível”, recordou a directora-geral da Saúde.

Notícia do Público de 24/10/19.