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Grande Adria, o continente perdido

Há 240 milhões de anos separou-se do mega continente Gondwana; há 100 milhões de anos começou a colidir contra o sul do continente europeu. Quebrou-se e afundou-se. Restam apenas algumas rochas à superfície para contar a sua história.

Depois de uma longa viagem pela história geológica da região do Mediterrâneo, uma equipa de investigadores conseguiu descobrir um continente “perdido”, actualmente enterrado sob os pés do Sul da Europa. Foi baptizado “Grande Adria” e, há 140 milhões de anos, tinha o tamanho da Gronelândia.

Disponibilizado online no início deste mês pela revista científica Gondwana Research, este é o resultado de mais de dez anos de estudo de uma equipa formada por investigadores de vários países.

Foi uma “grande quantidade de trabalho”, avaliou Laurent Jolivet, geólogo da Universidade de Sorbonne, em Paris, que não esteve envolvido na investigação, citado pela revista Science. É que, apesar de se conhecer o historial tectónico do Grande Adria há várias décadas, “a quantidade de detalhe neste time lapse sistemático de reconstrução não tem precedentes”, continua Jolivet.

“Esqueçam a Atlântida”, afirmou Douwe van Hinsbergen, um dos autores principais do estudo e professor de placas tectónicas globais e paleontologia na Universidade de Utrecht (Holanda), à CNN. “Sem se aperceberem, muitos turistas passaram as suas férias no continente perdido de Adria”, brincou.

“A maioria das cadeias montanhosas que investigámos teve origem num único continente, que se separou do Norte de África há mais de 200 milhões de anos”, disse van Hinsbergen. “A única parte que restou deste continente foi uma faixa que vai desde Turim, via mar Adriático, até à ponta da bota que forma Itália.”

Os geólogos chamam a esta área Adria e por isso os investigadores deste estudo referem-se ao “continente perdido” como Grande Adria.

Como se formou o Grande Adria?
Este “novo” continente formou-se quando se separou do mega continente Gondwana (que incluía o que é hoje o continente africano, América do Sul, Austrália, Antárctida, o supercontinente indiano e a península arábica). Há cerca de 240 milhões de anos, o Grande Adria começou a mover-se para norte, num movimento contra os ponteiros do relógio.

Tinha o tamanho da Gronelândia há cerca de 140 milhões de anos, numa altura em que estava submerso num mar tropical. Nessas condições, os sedimentos começaram a dar lugar a rocha. Continuou a mover-se até colidir com o continente europeu, num período entre 100 milhões e 120 milhões de anos atrás, quebrou-se e afundou-se debaixo desse continente.

A colisão aconteceu a uma velocidade de 3 a 4 centímetros por ano, estimam os investigadores. Apesar de parecer um processo lento, foi o suficiente para quebrar uma placa tectónica de mais de 100 quilómetros de espessura, enviando-a para debaixo do manto terrestre.

“Grande Adria teve uma história violenta e complicada”, avaliou van Hinsbergen. Uma fracção das rochas do Grande Adria ficou lascada durante a colisão e permaneceu na superfície da terra. São os únicos resquícios que existem deste continente: calcário e outras rochas encontradas nas cordilheiras do Sul da Europa. Para além de escassas, ainda estão espalhadas por mais de 30 países – de Espanha ao Irão. Todos esses países estiveram envolvidos nesta investigação, cada um deles com o seu serviço geológico, mapas e ideias sobre como as coisas se formaram.

A informação estava, por isso, espalhada ao longo de uma enorme área e foi muito difícil de recolher, acrescentou o investigador da Universidade de Utrecht. Neste estudo, van Hinsbergen e a sua equipa passaram mais de dez anos a juntar informação sobre a idade geológica das rochas recolhidas que achavam pertencer ao Grande Adria. Recolheram também informação sobre a direcção dos seus campos magnéticos, para saber quando e onde se formaram.

Em dez anos, o software necessário para a reconstrução também evoluiu, e agora há programas que ajudam a fazê-la, continuou van Hinsbergen, desta vez em declarações à revista Science. Com recurso a esses programas, os investigadores retiraram várias camadas à terra para fazer uma viagem no tempo, rumo a uma altura em que os continentes eram muito diferentes daquilo que são actualmente.

E o que viram foi “muito simplesmente, uma confusão geológica”: “Tudo estava curvado, partido ou empilhado”, resume o investigador principal deste estudo. A zona do Mediterrâneo desafia o consenso científico sobre as placas tectónicas, responsáveis pela formação de oceanos e continentes. Não deviam deformar-se quando se movem em áreas com grandes falhas, como as do Grande Adria fizeram.

“Comparando, os Himalaias são, por exemplo, um sistema relativamente simples. Aí, podem seguir-se várias falhas ao longo de mais de 2000 quilómetros.”

“Os resquícios deformados dos quilómetros mais elevados do continente ‘perdido’ ainda podem ser encontrados em cadeias montanhosas. O resto da placa continental, que tinha uma espessura de mais ou menos 100 quilómetros, afundou-se na Europa do Sul, para dentro do manto da terra, onde ainda podemos encontrá-la com ondas sísmicas a uma profundidade de 1500 quilómetros”, resume o investigador.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que a comunidade científica descobre “continentes perdidos”. Em Janeiro de 2017, uma equipa de investigadores anunciou a descoberta de um continente, também ele um resquício do supercontinente Gondwana, que começou a dividir-se há 200 milhões de anos. O pedaço que sobrou está agora debaixo das Maurícias. Também em 2017, outra equipa de investigação encontrou um continente submerso, ao qual chamou Zelândia, no Oceano Pacífico sul.

Notícia do Público de 24/09/2019.