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Colocar a felicidade num Frasco

Equipa do ISPA – Instituto Universitário, coordenada pelo investigador Gün Semin, integra consórcio internacional com dez parceiros de oito países que recebeu financiamento de 6,5 milhões de euros do programa Horizonte 2020 para explorar a influência dos odores na interacção social.

Uma equipa internacional de cientistas vai tentar decifrar a fórmula química do odor da felicidade e do medo nos próximos cinco anos. Um grupo de investigados do ISPA – Instituto Universitário, coordenado pelo psicólogo Gün Semin, participa numa primeira etapa crucial do projecto que quer sintetizar artificialmente estes cheiros para “influenciar” comportamentos.

A recolha dos “cheiros” característicos destas emoções, que se vai tentar descodificar e imitar, vai ser realizada em Lisboa com um grupo de homens e mulheres que vão participar em experiências cuidadosamente planeadas.

Primeira pergunta, antes de avançar: existe um odor da felicidade? Parece que sim. Há já muito tempo que Gün Semin se dedica ao estudo do contágio das emoções através dos cheiros ou, mais precisamente, pelo suor corporal.

O psicólogo, que nasceu na Turquia e que se formou na Alemanha e no Reino Unido, é actualmente professor catedrático no ISPA, onde coordena o laboratório de psicologia (Centro de Investigação William James).

Quando chegou a Lisboa, Gün Semin já trazia na bagagem vários artigos científicos publicados em prestigiadas revistas sobre o tema do odor da felicidade, do medo e até do nojo. Já tinha, por exemplo, demonstrado em 2012 que o suor de uma pessoa que sentiu medo ou nojo produzia a mesma emoção nas pessoas que cheiram esse odor. Mais tarde, em 2015, mostrou que a mesma coisa acontece com a felicidade.

Agora, o desafio chama-se POTION, numa sugestiva sigla que corresponde à promoção da interacção social através de odores corporais ligados a emoções. O trabalho mereceu um financiamento de mais de 6,5 milhões de euros da Comissão Europeia no âmbito de um programa de apoio a projectos inovadores e novas tecnologias chamado FET Proactive.

A iniciativa pertence a um consórcio internacional com dez parceiros de oito países, coordenado por uma equipa da Universidade de Pisa (Itália), mas a equipa de Gün Semin em Portugal terá um papel decisivo.

O sucesso do ambicioso projecto depende da ultrapassagem de dois difíceis obstáculos. Por um lado, os cientistas vão analisar os sinais químicos que são transmitidos pelos humanos para identificar as moléculas que são libertadas quando sentimos medo ou felicidade.

Será então preciso decifrar o código químico do cheiro da felicidade. Depois, quando (e se) esta etapa for concluída, será o momento de usar estes resultados para sintetizar artificialmente estes sinais químicos.

“Mostrámos antes que existe uma transmissão de emoções de um humano para outro, de um emissor para um receptor. Se, por exemplo, sentirmos medo ou nojo, o suor que produzimos debaixo do braço carrega essa informação para outra pessoa sem que ela se aperceba.

A maneira que usámos para medir isso foi através da electromiografia, ou seja, da medição de descargas eléctricas nos músculos. E, neste caso particular, nos músculos faciais”, lembra Gün Semin ao PÚBLICO.

Mas, o psicólogo reconhece que apesar de já ter observado o efeito “contagioso” do odor corporal do medo, do nojo e da felicidade, a tarefa de decifrar e sintetizar artificialmente estes sinais químicos que agora é proposta pelo POTION é uma história bem diferente.

“Uma das ideias principais que o grupo de Pisa apresentou era ver – e isto ainda não foi feito – se é possível fazer uma análise química da composição molecular destes diferentes cheiros. Será que posso apresentar algo e dizer ‘esta é a impressão digital [química] distintiva da felicidade ou do medo?’”

É uma pergunta sem resposta imediata. Neste momento, ainda não se sabe se se conseguirá apresentar tal coisa. Gün Semin apenas arrisca garantir que é algo que existe. Também é verdade que o suor é distintivo de cada pessoa, contendo uma série de informações além da emoção do sujeito, tais como características lineares como a idade ou o sexo.

O que o POTION quer fazer é maximizar o aspecto das emoções. Com esse objectivo, será recolhido o suor de diferentes indivíduos e depois da mistura de todas as amostras os químicos esperam conseguir retirar apenas a “marca” deixada pela emoção. A tal impressão digital química da felicidade. “Se serão capazes de o fazer, é outra questão”, concede Gün Semin.

Uma fórmula universal?
E será algo universal ou cada um de nós carrega o seu próprio código químico da felicidade? “O que sabemos é que o efeito do suor produzido por essa emoção é independente das características individuais”, diz o investigador.

Portanto, insiste, há um químico distintivo que é produzido para o medo ou para a felicidade. Encontrá-lo, descodificá-lo e imitá-lo, seria “revolucionário”, considera Gün Semin, referindo que são projectos como este que podem “mudar as regras do jogo”.

Mas… e se o conseguirmos? Que utilidade pode ter esta imitação do odor da felicidade e do medo? Os investigadores acreditam que pode servir para influenciar comportamentos em contextos sociais ou clínicos.

Um exemplo: usar o cheiro artificial da felicidade para contrariar estados de depressão, fobia ou ansiedade. O projecto multidisciplinar inclui, por isso, uma equipa especializada em psicologia clínica para trabalhar especificamente nesta área.

Na descrição do projecto refere-se que os resultados da análise “serão usados ​​para sintetizar artificialmente os sinais químicos dessas duas emoções [medo e felicidade], que fornecerão a base de um inovador sistema de entrega de odores controlado por computador”.

Os investigadores confirmam que “o sistema POTION será aplicado e testado em cenários sociais e clínicos”, exemplificando que “nos cenários sociais, se espera revelar como as pistas de olfacto funcionam na gestão dos sentimentos de confiança, presença e inclusão, nos contextos virtual, real e das redes sociais”.

Por fim, concluem: “O POTION fornecerá uma visão mais aprofundada sobre os alicerces fundamentais do comportamento humano, com o objectivo de ajudar a estabelecer relações sociais saudáveis ​​por meio da confiança, levando a uma melhoria geral do bem-estar”.

Uma ambição que terá tanto de sedutor como de assustador. Gün Semin parece estar consciente disso. Por isso, admite que possa existir “alguma ansiedade ética e legal à volta de um projecto como este e que exige uma atenção especial”. Daí, justifica, também existir neste projecto um grupo de peritos em ética e legislação, que, neste caso, pertencem à Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.

É impossível não pensar no risco de um mau uso deste “poder” que o odor da felicidade terá e no perigo de manipulações. “É de facto uma questão de senso comum dizer que então poderíamos manipular o ambiente de organizações.

Por exemplo, numa fábrica onde os trabalhadores estão insatisfeitos e a ameaçar fazer uma greve, colocamos este suor da felicidade do ar e eles ficam felizes num instante. Mas isso não funciona assim”, esclarece o psicólogo. Segundo explica, para mudar o que quer que seja, as pessoas terão de estar receptivas.

“Tem de haver alguma disponibilidade psicológica. Tem de se estar num espírito receptivo, se isso não existir não podemos manipular nada”, garante. Assim, a manipulação poderá servir para reforçar um estado emocional ou começá-lo do zero, mas não servirá para o reverter.

Em relação ao medo, é difícil escrutinar um cenário onde seja útil promover esta emoção, por isso, neste capítulo, interessa “entender as condições em que os odores do medo são emitidos para reduzir os efeitos de tais odores”.

Na verdade, a questão só se vai colocar depois de ultrapassados muitos “ses” com sucesso. Se conseguirem a fórmula química, se a conseguirem reproduzir e se se comprovar que a fórmula sintética tem o mesmo efeito do odor “natural”. O POTION começou em Janeiro deste ano e a primeira etapa deste projecto é coordenada pelo director do Centro de Investigação William James, do ISPA.

Três tipos de suor
“Vamos recolher três tipos de suor. O odor de descanso (relaxado), o odor de felicidade e o odor do medo”, conta ao PÚBLICO, adiantando que os participantes recrutados são remunerados e obrigados a cumprir escrupulosamente uma série de regras. “As exigências vão desde um regime específico de uma dieta sem alimentos como o alho ou a cebola, também têm de ser não fumadores e manter um protocolo do que fazem”, enumera.

Durante 25 ou 30 minutos, os voluntários serão expostos (sempre no mesmo dia da semana e na mesma hora) a filmes que se espera provocarem uma determinada emoção. Ou seja, tranquilos documentários da natureza, comédias e filmes de terror.

O estudo vai incluir homens e mulheres, caucasianos, entre os 18 e 35 anos. Sabe-se à partida que há diferenças. Os homens, por exemplo, produzem mais suor do que as mulheres. E as mulheres têm, de uma forma geral, melhor noção de cheiro do que os homens, são melhores narizes, portanto. Mas, o que também já se sabe é que “os efeitos das emoções induzidas por odores são os mesmos”.

O investigador tem cerca de 36 meses de um cuidadoso trabalho pela frente que envolve desde a preparação das pessoas que vão fazer a recolha das amostras até ao seu armazenamento e envio para Itália. “Nós vamos mandar as amostras de suor, normalmente são congeladas em gelo seco a 80 graus negativos.”

Gün Semin admite que a tarefa que o POTION se propõe cumprir é ambiciosa. “Para ser totalmente sincero, sou agnóstico.” Porquê? “Acho que a composição é extremamente complexa. Muito, muito complexa”, diz. Há algumas certezas mas também muitas dificuldades e obstáculos.

“Há indiscutivelmente químicos específicos que dão origem à felicidade ou medo. Mas… pense numa orquestra sinfónica. Há vários instrumentos. Às vezes tocam todos, outras vezes só alguns…o que temos de saber é que há uma orquestra ali e temos de perceber em que ponto cada instrumento está a tocar ou está a tocar de forma mais predominante do que outros.” E que notas estão a tocar. “Sim, essa é a tarefa. Não basta juntar os músicos e instrumentos e deixar que toquem o que quiserem.”

Em Dezembro de 2023 teremos a felicidade num frasco? Gün Semin ri. “O objectivo da análise química será ver se é possível produzir a mesma composição química sinteticamente. Podemos colocá-la num frasco ou num sabonete, onde quiser. Se o conseguirem produzir.”

Notícia do Público de 02/02/2019.