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Um planeta de extremos

Nos Estados Unidos, um frio inimaginável já causou várias mortes. Na Austrália, um calor muito para lá do normal está a pôr o país debaixo de seca e incêndios. Ambos os fenómenos estão associados às alterações climáticas.

Esta semana a Terra está a viver situações extremas. Enquanto nalguns sítios dos Estados Unidos se alcançaram temperaturas mínimas de cerca de 40 graus Celsius negativos – o que já causou pelo menos doze mortes –, na Austrália as temperaturas ultrapassaram os 40 graus positivos nalguns locais. Esta onda de calor desencadeou uma seca severa e incêndios florestais devastadores.

Nos Estados Unidos, 14 estados do Centro-Oeste e do Leste do país estão em alerta devido ao vórtice polar que lançou um manto de frio, com as temperaturas a chegarem aos 40 graus Celsius negativos. Contudo, em algumas zonas do Dacota do Norte e do Sul, de Wisconsin e Minnesota, a sensação térmica pode alcançar mesmo os 56 graus negativos.

Este frio extremo já causou pelo menos 12 mortes, segundo a agência Reuters. Essas mortes estão relacionadas com acidentes de carros ou outro tipo de exposição a este frio. Além disso, houve ainda centenas de outros acidentes rodoviários, incluindo uma colisão em cadeia com cerca de 12 carros em Grand Rapids, no Michigan, segundo um meio de comunicação local citado pela Reuters.

Mais de 2500 voos já foram cancelados ao longo do país e mais de 3500 estavam atrasados esta quinta-feira. Várias escolas, serviços públicos, estações de correios têm estado encerrados. E têm sido divulgados vídeos que mostram que o gelo nas intersecções dos carris dos comboios em Chicago tem de ser derretido com as chamas de aquecedores a gás.

Ontem, quarta-feira, mais de 83 milhões de pessoas nos Estados Unidos sentiram temperaturas negativas, segundo o jornal espanhol El País. Em toda a região Centro-Oeste dos Estados Unidos foram quebrados 30 recordes de temperatura. A mais baixa, também na quarta-feira, chegou aos 40 graus negativos em International Falls, no Minnesota. “O coração desta onda de frio (…) está a atingir-nos agora”, frisa ao El País Brian Hurley, meteorologista do Centro de Previsão do Tempo do Serviço Meteorológico Nacional (NWS) dos Estados Unidos.

Um Árctico mais quente

Este frio extremo tem sido causado por um vórtice polar no Árctico, uma grande área de baixa pressão que rodeia o Pólo Norte do planeta e que enfraquece no Verão e se intensifica no Inverno. “Em muitas ocasiões, durante o Inverno do hemisfério Norte, o vórtice polar expande-se e envia o seu ar frio para sul”, explica-se no site do NWS. “Isto acontece regularmente durante o Inverno e está sobretudo associado a ondas de frio extremo provenientes do Árctico para os Estados Unidos.” Alguns exemplos são as ondas de frio extremo de 1977, 1982, 1985, 1989 e 2014.

Só que este ano o fenómeno foi mais forte. O físico Filipe Duarte Santos explica ao PÚBLICO que no Inverno, no Árctico, quando a temperatura baixa muito, forma-se então esse vórtice que fica contido por uma corrente de ventos muito fortes em altitude. “O que acontece – e já acontecia sem as alterações climáticas [devido à acção humana] – é que esse vórtice se parte e, em vez de um vórtice, passam a ser vários que vêm para latitudes mais baixas”, indica. “Desta forma, aquele ar que estava enclausurado no Árctico passa a estar em latitudes mais baixas.”

Contudo, os efeitos do vórtice polar do Árctico parecem estar a tornar-se mais frequentes e severos e isso está relacionado, sublinha o físico, com as alterações climáticas – ao contrário do que é sugerido nos tweets de Donald Trump. “As alterações climáticas intervêm [no vórtice polar] porque a zona do Árctico está a aquecer”, diz Filipe Duarte Santos, acrescentando que a média da temperatura do Árctico subiu desde o período pré-industrial cerca de dois graus Celsius. Ora, o Acordo de Paris de 2015 quer limitar a subida da temperatura global do planeta bem abaixo dos dois graus Celsius face aos níveis pré-industriais e até ao final do século XXI – ora isso já aconteceu no Árctico.

Há uns anos, o oceano Árctico estava todo coberto de gelo – o que reflectia a radiação solar e permitia que esta zona não aquecesse. Mas agora a maior parte desse gelo transformou-se em água em estado líquido. “Esse oceano absorve muito mais a radiação solar do que gelo e, ao absorvê-la, vai aquecer”, indica Filipe Duarte Santos. “O que acontece é que esse aquecimento acaba por perturbar e fragmentar o vórtice polar. Ao fragmentá-lo, provoca este último acontecimento [o frio extremo nos EUA].” Desde o início de Janeiro deste ano, em vez de um vórtice, tem havido afinal três. “Esta maior frequência da fragmentação do vórtice polar é realmente uma consequência das alterações climáticas.”

As noites mais quentes de Janeiro no mundo

Por outro lado, na costa Oeste da Austrália, faz-se sentir um calor abrasador. Há cerca de uma semana, em Adelaide (no Sul da Austrália) as temperaturas chegaram mesmo aos 46 graus Celsius positivos. Já no Sudeste do país, as temperaturas durante a noite chegaram aos 35 graus, fazendo destas as noites mais quentes no mundo em Janeiro, de acordo com o jornal norte-americano The Washington Post.

E a situação parece que não vai melhorar: as previsões para a maior parte do território australiano apontam que, entre 1 de Fevereiro e 30 de Abril, a probabilidade de as temperaturas ficarem acima da média é de 70%, segundo o Gabinete Australiano de Meteorologia, citado pela Reuters.

Além de provocar seca, esta onda de calor extremo tem causado vários incêndios florestais, o que já devastou milhares de hectares. Por exemplo, na Austrália Ocidental – a região onde se produz mais trigo do país –, os agricultores estão preocupados. “Há um grande risco de a produção cair”, disse à Reuters Phin Ziebell, analista do Banco Nacional Australiano. Aliás, nos últimos anos, a produção de trigo tem vindo a sofrer uma descida. A produção de 2018/2019 atingiu os valores mais baixos dos últimos dez anos.

Os animais também têm sofrido com tanto calor no território australiano. Na segunda-feira, centenas de milhares de peixes estavam mortos numa barragem e nos seus canais em Menindee, no Oeste da Austrália. E há relatos de que até cobras se têm refugiado em casas-de-banho públicas para se refrescarem, segundo o The Washington Post.

Já no início deste mês, a Austrália já tinha tido uma onda de calor no Sudeste do país, que originou falhas de energias nalgumas áreas. No estado de Vitória, por exemplo, 200 mil pessoas ficaram sem energia eléctrica. E, na Tasmânia, os incêndios também destruíram casas – e agora estão a consumir os parques naturais.

Desde 1910 que a temperatura média do ar na Austrália subiu um grau Celsius, o que tem contribuído para ondas de calor e secas graves cada vez mais frequentes, segundo o Gabinete Australiano de Meteorologia. Oito dos dez anos mais quentes na Austrália (de que há registo) aconteceram todos nos últimos 13 anos.

“[Esta situação na Austrália] tem a ver com o facto de a temperatura média na atmosfera à superfície [da Terra] estar a aumentar”, realça ainda Filipe Duarte Santos.

Ainda que em pontos distantes da Terra, os fenómenos extremos de frio nos Estados Unidos e calor na Austrália têm ambos um contributo das alterações climáticas. “Tanto a fragmentação do vórtice polar como as ondas de calor são fenómenos que sempre existiram, mas agora tanto um como outro são mais frequentes.”

Notícia do Público de 31/01/2019.