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Células produtoras de mielina

Investigador português coordenou investigação sobre um conjunto de células que pode ter um papel importante na progressão da doença e que pode ser útil para novas abordagens terapêuticas.

O alvo já tinha sido escolhido. O que se pretendia era investigar o papel de um conjunto específico de células, os oligodendrócitos, na progressão e origem da esclerose múltipla. Depois de um trabalho que usou o modelo do ratinho, Gonçalo Castelo Branco, investigador português no Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, publicou um novo artigo na revista Nature sobre os resultados obtidos após a análise de amostras post mortem de cérebros de pacientes com esclerose múltipla. Desta vez, a investigação revela a diversidade das populações de oligodendrócitos numa nova perspectiva que poderá vir a ser útil para definir novas estratégias terapêuticas.

Em todo o mundo, 2,5 milhões de pessoas vivem com esclerose múltipla. Esta doença desenvolve-se quando os glóbulos brancos do sistema imunológico atacam a substância isolante conhecida como mielina, que é produzida por oligodendrócitos e reveste as fibras nervosas do sistema nervoso central que os neurónios usam para comunicar entre si.

Sem esta espécie de “fita isoladora” que é a mielina podem acontecer “fugas” nos circuitos nervosos e, assim, interferências na transmissão adequada dos sinais eléctricos nervosos. Uma “avaria” causa os sintomas da EM. Sabendo que os oligodendrócitos são produtores da mielina que é degradada pelo sistema imunitário na esclerose múltipla, os investigadores quiseram perceber o que levava estas células a perder a sua capacidade de fazer essa regeneração no cérebro.

“Os estudos em modelos de ratinhos/ratos de esclerose múltipla indicam que a regeneração da mielina na doença é feita essencialmente por células progenitoras de oligodendrócitos. Agora, o nosso estudo sugere que, nas lesões de doentes, há uma diminuição destas células progenitoras, o que sugere que a sua contribuição para a regeneração poderá ser menor do que se pensava”, refere Gonçalo Castelo Branco ao PÚBLICO, resumindo o avanço conseguido neste último trabalho. E acrescenta: “Além disso, verificamos que existem diferentes proporções de diversos tipos de oligodendrócitos em esclerose múltipla.”

O estudo, coordenado também por investigadores na Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, envolveu a análise a amostras de cinco indivíduos sem patologia neurológica e quatro doentes com esclerose múltipla progressiva. Nestes doentes, diferentes tipos de lesões foram analisadas.

“Os investigadores usaram sequenciamento de RNA de núcleos de células individuais, que permite a determinação da actividade genética em cada uma das células, para investigar a composição celular de lesões de esclerose múltipla com uma resolução sem precedentes”, refere o comunicado de imprensa sobre o estudo.

“Descobrimos que os oligodendrócitos são uma população diversificada de células e que diferentes tipos têm diferentes funções no cérebro”, sintetiza o professor Charles ffrench-Constant, do Centro de Pesquisa Médica em Medicina Regenerativa da Universidade de Edimburgo. O investigador português acrescenta: “Embora tenhamos encontrado algumas semelhanças nos oligodendrócitos entre o modelo de ratinho da esclerose múltipla e pacientes com esclerose múltipla, os nossos resultados também revelam diferenças. Encontrámos alterações nas diferentes subpopulações em pacientes, sugerindo um papel mais complexo destas células na patologia da doença, mas também em regeneração”.

Gonçalo Castelo Branco chama a atenção para um outro artigo de um outro grupo de investigadores do Instituto Karolinska que é publicado na mesma edição da Nature e que também se debruçou sobre os oligodendrócitos. “Nesse artigo, os investigadores utilizaram uma metodologia diferente (datação por carbono 14) para determinar a idade dos oligodendrócitos em lesões de esclerose múltipla, e os seus resultados sugerem que os oligodendrócitos maduros poderão ter um papel importante na regeneração mas que a contribuição das células progenitoras [de oligodendrócitos] para a regeneração poderá ser menor do que se pensava, tal como os nossos resultados”, explica.

O comunicado do Instituto Karolinska sobre o estudo refere ainda que os investigadores “descobriram novos marcadores que podem ser úteis para a caracterização neuropatológica da EM”. Tais como? “Descobrimos que a proporção de células que tem determinados genes activos é diferente, dependendo do tipo de lesão. Alguns destes genes poderão provavelmente ser usados como marcadores de diferentes tipos de lesão em esclerose múltipla”, responde Gonçalo Castelo Branco.

Passo a passo, o papel e a função deste grupo de células na esclerose múltipla começam a ser desvendados. “Este estudo foi realizado com um número reduzido de doentes, mas apesar disso permitiu-nos descobrir alguns aspectos novos da esclerose múltipla, que pudemos confirmar noutras amostras de doentes”, confirma o cientista.

O próximo passo, acrescenta, será avançar para uma análise de número mais elevado de amostras, para que se possa “confirmar, rever e/ou expandir o nosso conhecimento sobre o papel dos oligodendrócitos em esclerose múltipla, para poder definir novas estratégias terapêuticas para a regeneração da mielina”.

Notícia do Público de 28/01/2019.