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Novo método pode ajudar diabéticos

O sistema vascular criado numa placa de Petri foi transplantado para ratinhos e funcionou. Este novo método pode ajudar a evitar alterações nos vasos sanguíneos de diabéticos e perceber melhor as causas das doenças vasculares.

Um grupo de cientistas criou um sistema de vasos sanguíneos em laboratório a partir de células estaminais humanas induzidas (células que foram reprogramadas a partir de células adultas e podem diferenciar-se noutras, conseguindo originar qualquer tipo de tecido do organismo). Depois, o sistema foi transplantado com sucesso para ratinhos: os “organóides” criados artificialmente formaram uma “estrutura vascular estável” nos ratinhos, incluindo artérias, arteríolas e vénulas (pequenas veias). O estudo que relata estas conclusões foi publicado esta quinta-feira na revista científica Nature.

Uma das boas notícias nesta experiência “sem precedentes” é a sua possível utilização no tratamento da diabetes e de doenças vasculares. “Os nossos organóides assemelham-se muito aos capilares sanguíneos humanos e agora podemos estudar as doenças vasculares directamente em tecido humano”, afirmou em comunicado um dos autores do estudo, Josef Penninger, do Instituto Molecular de Biotecnologia da Academia de Ciências da Áustria, a que pertencem quase todos os autores​. Estiveram ainda envolvidos investigadores do Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

Criados em placas de Petri, os organóides são estruturas tridimensionais que mimetizam o funcionamento de um órgão e podem ser usados para estudar as características desses órgãos em laboratório, sem afectar humanos.

Neste caso, foram transplantados para ratinhos e funcionaram, o que significa que não só é possível criar um sistema vascular a partir de células adultas que foram revertidas para células estaminais, como também é possível desenvolver noutra espécie um sistema vascular humano que funciona. Em 2012, um grupo de cientistas tinha já conseguido criar um sistema de vasos sanguíneos tridimensional, com sangue a fluir.

Como é que isto ajuda no tratamento da diabetes?

Os cientistas concluem que os organóides agora criados se “organizam sozinhos” e representam de “forma fiel” a estrutura e função dos vasos sanguíneos humanos no tratamento da diabetes, doença que afecta mais de 420 milhões de pessoas por todo o mundo. A diabetes caracteriza-se pelo excesso de glicose no sangue, causada pela produção (ou acção) insuficiente de insulina, a hormona responsável por levar a glicose do sangue para as células, evitando os efeitos negativos deste açúcar.

O estudo foca-se precisamente nas alterações dos vasos sanguíneos causada pela diabetes, como o engrossamento das paredes sanguíneas e a perda de células vasculares. Isto prejudica a circulação sanguínea e o fornecimento de oxigénio e nutrientes às células e tecidos, o que pode resultar em complicações como a cegueira, insuficiência renal, ataques cardíacos, enfartes e amputação dos membros inferiores. Como ainda há incerteza quanto à forma como se processam estas disfunções vasculares nos diabéticos, é difícil aplicar (e desenvolver) tratamentos localizados.

Para melhor entender como os vasos sanguíneos são afectados, os cientistas expuseram os organóides a altas concentrações de glicose, simulando um cenário de hiperglicemia semelhante ao que acontece nos diabéticos. Em consequência, os vasos sanguíneos artificiais ficaram mais espessos e foram testados vários medicamentos contra a diabetes para o tentar evitar. Nenhum resultou. Mas houve algo que fez efeito: um inibidor da y-secretase, uma espécie de enzima que previne o engrossamento das veias e artérias – o que indica que, pelo menos em animais, bloquear a y-secretase pode ser útil no tratamento da diabetes.

Como “todos os órgãos humanos estão ligados ao sistema circulatório”, este método pode ainda ser útil para outras doenças, refere o investigador Josef Penninger, ajudando “a deslindar as causas e tratamentos de uma série de doenças vasculares”, como a Alzheimer, cancro, doenças cardiovasculares ou problemas de cicatrização.

Notícia do Público de 17/01/2019.