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Insucesso escolar no secundário

No ano lectivo passado estavam identificados cerca de 88 mil alunos com necessidades educativas especiais.

Chumbar nem que seja um ano tem impacto no percurso durante o secundário. Região, natureza da escola e escalão do apoio social também ditam sucesso ou insucesso.

Metade dos alunos que começam um curso científico-humanístico no ensino secundário um ano mais tarde do que o esperado ficam retidos ou desistem. Entre os que iniciam este ciclo na idade normal, aos 15 anos, isso só acontece com 27%. Portanto, basta um ano para fazer duplicar o insucesso. Esta é uma das constatações de um novo estudo sobre o ensino científico-humanístico agora divulgado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

A DGEEC avaliou a situação dos alunos inscritos nos cursos científico-humanísticos, que são cerca de metade dos estudantes do secundário, três anos depois do ano lectivo em que entraram. Analisa, por isso, os estudantes matriculados pela primeira vez em 2012/2013, 2013/2014 e 2014/2015 para depois saber em que ponto estavam em 2014/2015, 2015/2016 e 2016/2017. Os três anos são o período esperado para a conclusão do secundário.

Começar mais tarde pode ser associado a retenções prévias durante o ensino básico e, por isso, é uma métrica do impacto dos chumbos no sucesso escolar. Quanto mais avançada é a idade de entrada, ou seja, quanto mais chumbos houve, maior é o insucesso. Por exemplo, só 12% dos estudantes que começam aos 18 termina no tempo previsto e 38% acabam por desistir. Este “é um fortíssimo preditor do desempenho escolar no ensino científico-humanístico, como aliás é natural e conhecido”, constata a DGEEC no estudo Situação após 3 anos dos alunos que ingressam no ensino científico-humanístico – anos lectivos 2014/15, 2015/16 e 2016/17.

Os alunos que não beneficiam de apoio social escolar (ASE) e os que frequentam escolas privadas durante o ensino secundário têm uma melhor prestação neste indicador de conclusão do que os seus colegas que beneficiam de ASE e frequentam escolas públicas. É entre os alunos que recebem mais apoio ASE — o escalão A — que os resultados são piores. Menos de metade (45%) termina o secundário nos três anos esperados. Este dado, acrescenta a DGEEC na sua análise, “é habitual em muitos outros níveis de ensino e ofertas formativas (com uma notável excepção nos cursos profissionais) e é válido não só para os alunos que ingressaram nos cursos científico-humanísticos em 2014/2015, mas também para os que ingressaram em 2013/2014 e em 2012/2013”.

O Algarve e Lisboa são as regiões onde os alunos menos concluem o secundário no tempo esperado, 51% e 54%, respectivamente. A taxa de sucesso é maior no Norte (64%). A DGEEC só analisou dados para Portugal Continental.

Entre os alunos inscritos nos cursos de Ciências e Tecnologias (63%) o sucesso também é maior do que nos outros três — Línguas e Humanidades, Ciências Socioeconómicas e Artes Visuais.

Mesmo assim, ao olhar para a evolução entre 2014/2015 e 2016/2017, os dados da DGEEC mostram que há cada vez mais alunos a concluir o secundário no tempo previsto.

Comparação com os cursos profissionais

Em Agosto, a DGEEC fez uma análise de percursos semelhante à publicada neste relatório, mas para os estudantes dos cursos profissionais — que já são 28% do total de inscritos. E, agora, faz algumas comparações.

“A percentagem de alunos que se transfere para outras ofertas educativas a meio do seu percurso no ensino secundário é significativamente superior entre os alunos que ingressam nos cursos científico-humanísticos (cerca de 10%) do que entre os que optam pelos profissionais (cerca de 5%). De facto, como é conhecido, a maioria dos alunos do ensino científico-humanístico que muda de via formativa tem como destino, precisamente, o ensino profissional”, nota a DGEEC, que também contabilizou os alunos que se matricularam noutras modalidades do secundário nestes anos lectivos.

Outro dado: “A análise comparativa mostra que, para alunos que ingressam no secundário com a mesma idade, portanto com o mesmo número de retenções anteriores, as percentagens de conclusão em três anos são significativamente superiores no ensino profissional face ao científico-humanístico”, detalha o relatório. Um exemplo: 43% dos alunos que entram para um curso profissional aos 17 anos terminam-no no período previsto. Nos científico-humanísticos isso só acontece com 18%.

“Os alunos que ingressam no profissional parecem ter menos dificuldades escolares durante o ensino secundário do que os que ingressam no científico-humanístico, o que é um facto significativo e diferenciador destas duas ofertas”, conclui o relatório.

Notícia do Público de 29/10/2018.