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Portugal mantêm a mudança da hora

A hora muda este domingo. O Observatório Astronómico de Lisboa recomendou ao Governo manter a mudança da hora e considera que a transição para o regime de Inverno deveria realizar-se mais cedo, em Setembro.

O Governo português já anunciou à União Europeia (UE) que pretende manter a mudança da hora e “manifestou discordância” com a proposta da Comissão Europeia, confirmou nesta quinta-feira ao PÚBLICO o Ministério do Planeamento.

A proposta da Comissão Europeia de abolir a mudança horária foi anunciada em Agosto, pedindo aos governos de cada país que se pronunciassem até Abril. Se a decisão da Comissão Europeia for avante, a proposta terá de ser ainda aprovada pelo Parlamento Europeu e depois pelo Conselho Europeu.

A decisão portuguesa foi tomada por ser esse o “entendimento da ciência”, dizia o primeiro-ministro, António Costa, em Outubro. Por base tem um relatório de 44 páginas feito pelo director do Observatório Astronómico (OAL, a entidade competente nesta matéria), Rui Agostinho.

“A melhor argumentação para não acabar com a mudança da hora é que já passámos por isto e as pessoas não gostaram”, diz ao PÚLICO Rui Agostinho, referindo-se ao período entre 1992 e 1996, quando Portugal tinha o mesmo horário que Bruxelas (e ainda adiantava uma hora no Verão). “Se acabarmos com a mudança da hora, daqui a quatro anos vamos ter queixas. Temos a experiência de ter acontecido, não é apenas raciocínio científico.”

Ficar sempre no horário de Verão (UTC+1) implicaria um amanhecer tardio, chegando a ser por volta das 9h em alguns meses, e “as pessoas precisam de luz solar para despertar, para o corpo reagir”, o que seria sobretudo prejudicial para as crianças e para os jovens. “Se poderíamos viver com isso? Claro que sim, ninguém morre e nós adaptamo-nos. Se é a melhor solução? Não, não é”, argumenta.

Mudar a hora em Setembro

Além de manter o regime de mudança de hora actual, o director do OAL considera que a transição para o horário de Inverno deveria acontecer no final de Setembro e não no final de Outubro, para ser uma mudança mais suave. “Era essa a tradição no continente europeu, à excepção das ilhas britânicas que faziam no final de Outubro e assim acabou por ficar [em 1995]”, explica.

E dá o exemplo de uma pessoa que saia do trabalho às 17h30: em Setembro sai e ainda tem mais do que uma hora de sol e quando muda a hora em Outubro passa a ter só dez minutos de sol; se a hora mudasse no final de Setembro, ainda teria cerca de uma hora de sol para aproveitar. “Ainda consegue usufruir dessa luz solar e o impacto não é tão negativo”, afirma.

Desde 2001 que os Estados-membros da União Europeia são obrigados a mudar a hora legal duas vezes por ano: a primeira no último domingo de Março e a segunda no último domingo de Outubro. Agora, a União Europeia sublinha que a decisão de mudar a hora é uma “competência nacional”, mas quer que exista uma decisão concertada pelo menos entre países vizinhos. “Em Espanha ainda estão a debater internamente, mas o lado da ciência também é favorável a manter a existência da hora de Verão”, adianta o director do OAL.

Um inquérito “enviesado”

Para tentar averiguar qual o regime que os cidadãos preferem, a União Europeia fez um inquérito online que somou cerca de 4,6 milhões de respostas (de mais de 500 milhões de habitantes na UE), uma participação recorde numa consulta pública europeia. No inquérito, 84% dos inquiridos disseram estar a favor de manter sempre o mesmo horário. Só 0,33% dos portugueses votaram, e a grande maioria (79%) disse estar a favor de manter o horário de Verão para sempre.

Rui Agostinho diz ser importante “combinar a voz da ciência com a experiência dos cidadãos”, mas não concorda com a forma como foi feito o inquérito. “Trata-se de uma amostra altamente enviesada e que não é representativa da opinião média da Europa”, protesta, dizendo que o preenchimento do questionário “deveria ter sido obrigatório”. “Deveria ter sido um inquérito com uma discussão alargada, com debates a explicar os prós e contras. Deveria ter sido uma votação fundamentada com consciência das implicações”, assegura.

Um dos argumentos para manter sempre a mesma hora é o incómodo causado pela mudança. Rui Agostinho compara esses efeitos a uma viagem aos Açores, em que os impactos da mudança da hora depois de chegar a terra são quase nulos: “Há quem fique incomodado com a mudança da hora, mas ninguém ficou perturbado de tal forma que não consiga fazer a sua vida normal. Sentem os efeitos durante um ou dois dias, uma semana no máximo”.

Notícia do Público de 26/10/2018.