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Jovens ganham prémio da Pordata

Um rapaz de 12 anos, que propôs um indicador para quantificar o grau de área ardida por município, e um grupo de economistas, que sugeriu medir a intensidade carbónica da economia por sector de actividade, são os vencedores da 4.ª edição do prémio entregue nesta quarta-feira, em Lisboa.

A base de dados da Pordata dedicada ao tema do Ambiente, Energia e Território está mais rica. Tomás Pereira tem 12 anos e é graças ao seu contributo que, a partir de agora, é possível consultar o “grau de área ardida por município”. A juntar-se a esta novidade estatística surge a “intensidade carbónica da economia por sector de actividade”, um indicador proposto por três investigadores da Universidade da Beira Interior. As duas ideias vão ser premiadas nesta quarta-feira, em Lisboa, com o prémio Pordata Inovação, na categoria de indicadores já existentes.

Foi a fazer um trabalho de Geografia sobre indicadores estatísticos que, entre pesquisas no site da Pordata, Tomás se deparou com os dados sobre o total de área ardida no país. Apercebeu-se que faltava informação ao nível municipal e fez as contas com números já disponíveis — o rácio entre a área ardida num concelho e o total da sua área. Estava assim “criado” o indicador que viria a apresentar a concurso.

Tímido e bom aluno, uma das disciplinas favoritas de Tomás é mesmo a Geografia. Frequenta o 9.º ano, na Escola Básica António Augusto Louro, no Seixal. É com palavras de adulto que explica ao PÚBLICO a importância de ir ao detalhe no indicador que entendeu que fazia falta à Pordata: “Quando só analisamos o dado da área ardida podemos negligenciar alguns concelhos, onde apesar de o número ser pequeno, é relativamente grande em proporção da área total do município. Além disso, achei interessante sugerir um indicador que ainda não existia na base de dados.” E o que diz esse indicador? Que, em 2017, mais de metade do território de onze municípios ardeu.

António Marques, professor e investigador na área da economia da energia, é um dos três economistas da Universidade da Beira Interior responsáveis pela proposta de um indicador que mede a “intensidade carbónica da economia por sector de actividade”. A sensibilidade ao tema, diz, “resulta de alguns anos de trabalho na área”. “Não aparece vinda do nada.”

A versão mais genérica deste indicador já existia (e até foi uma das participações vencedoras do Prémio Inovação 2016), mas o investigador defende que JJ“pensar nele de forma desagregada permite a adopção de políticas concretas”. E defende: “Quando se olha só para o bolo global há muitas limitações.”

Ao analisar este rácio entre o total nacional de emissões de gases com efeito de estufa e o valor acrescentado bruto conclui-se que houve um aumento da intensidade carbónica na agricultura entre 1995 e 2015 (o único sector onde isso aconteceu). É surpreendente? Não para António Marques, que se debruça sobre o tema há vários anos. “O sector da carne é altamente poluente”, afirma. Mais curiosa é a redução da carbonização no sector dos transportes. O que, diz, mostra uma viragem para fontes de energia mais diversas. Porém, é um “caminho que tem de ser acompanhado”.

Uma vez que os dois prémios foram atribuídos na categoria A  destinada a quem concorre propondo à Pordata a inclusão na sua base de dados de indicadores que já existem, desenvolvidos por outros autores ou por instâncias nacionais ou internacionais —, os autores serão premiados com a colecção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Nas outras duas categorias — indicadores inéditos propostos em trabalhos científicos já publicados ou no prelo e indicadores especificamente criados para o Pordata Inovação — o prémio é de 1500 ou 2500 euros, respectivamente, mas este ano não foram atribuídos.

Quatro anos de prémio

O Pordata Inovação surgiu em 2015, para assinalar o quinto aniversário da Pordata, um projecto da Fundação Francisco Manuel Santos. Desde então já foram premiados oito indicadores. O índice de Gini na saúde e o equilíbrio orçamental (em 2015); o índice de hierarquia de gestão dos resíduos urbanos, o emprego nas administrações públicas em percentagem da população activa e a intensidade carbónica da economia (em 2016); e o índice de desigualdade territorial das remunerações médias (em 2017). O prémio, que já vai na 4.ª edição, tem como objectivo mostrar que “ainda não está tudo contado”, diz Maria João Valente Rosa, directora da Pordata.

Quanto aos critérios, Maria João Valente Rosa explica que as propostas têm de ter “rigor metodológico, facilidade de entendimento e rigor e relevância”. Além disso, os indicadores a concurso têm de ser construídos a partir de números que estão disponíveis na Pordata e ser de actualização anual. O júri é composto por uma pessoa que representa a Pordata e por coordenadores científicos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A competição é aberta a qualquer cidadão ou grupo de cidadãos. Mas “grande parte das pessoas [que se candidatam] são investigadores e professores que lidam com o conhecimento”, reconhece Maria João Valente Rosa. Mesmo assim, faz questão de afirmar que “o prémio não exclui ninguém”. Nem sequer uma criança de 12 anos.

Para Maria João Valente Rosa, a importância deste prémio está na forma como se relaciona com aquilo que é a missão da Pordata: “Aproximar as estatísticas dos cidadãos” e, desse modo, facilitar a compreensão da realidade. Os números são importantes na medida em que “reflectem aquilo que somos”, defende.

Notícia do Público de 26/09/2018