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Acolher jovens estrangeiros

Há famílias portuguesas que recebem adolescentes de outras nacionalidades através de intercâmbios que lhes permitem estudar em Portugal desde três meses a um ano lectivo. Neste período criam-se laços para a vida e aprende-se sobre outras culturas, dizem.

Francesca, uma jovem italiana, foi a primeira estudante de intercâmbio recebida por Maria João Lourenço e pela sua família, em 2013. Quando soube que temos cinco filhos, “ficou assustada” com a dimensão da família, lembra Maria João. Mas, depois, “adorou”. A esta adolescente seguiram-se Katrine, dinamarquesa, depois, ao mesmo tempo, Joaquin, do Chile, e Orkun, da Turquia. A seguir, Rosie, dos EUA, e Marthe, da Bélgica. No domingo, a família deu as boas-vindas a Baiplu, da Tailândia, e a Ege, da Turquia. Receber estes jovens é uma forma de “educar para a tolerância” e para a diversidade de opiniões e valores em cada cultura.

O programa em que a família está envolvida é da responsabilidade da AFS Portugal — uma associação que promove intercâmbios nacionais e internacionais entre jovens e as suas famílias. Há uma semana, mais de 80 estudantes conheceram as suas famílias de acolhimento.

Quando cá chegam, os jovens são tratados como filhos. Levam-nos a passear, a conhecer a cultura e até a participar nos encontros com outros membros da família. E pesa mais no orçamento familiar? “Depende”, diz Maria João. “Encaramos isto como um investimento que acaba por ser quase irrisório. Grande parte dos custos é da responsabilidade da AFS, como o material escolar e os almoços durante a semana. Não vou dizer que não há gastos — até porque passeamos muito mais —, mas faz parte do pacote educativo que queremos dar aos nossos filhos.”

Sobre os custos, a família de Cláudia e Jorge Calisto diz que pesa mais enviar um filho do que receber. Este ano, a filha Leonor, de 17 anos, foi para os Estados Unidos, o que, entre a escola, viagens e outros gastos, fica perto dos 12 mil euros, estima Jorge Calisto.

Com a partida temporária de Leonor, a família Calisto não contava receber ninguém este ano. “Ser família de acolhimento não estava nos planos iniciais”, lembra Jorge. “Até achámos que ia ser um ano mais tranquilo, só com dois filhos, mas depois ficámos curiosos e sensibilizados pelo facto de haver crianças ainda sem família de acolhimento.” Foi assim que Esin, uma jovem turca de 15 anos, foi parar a casa desta família lisboeta.

Abrir horizontes

Tanto como recebem estes jovens de outras nacionalidades, Maria João e o marido deixam os seus filhos ir. Este ano lectivo, um está na Dinamarca, através dos intercâmbios da AFS, e outra, mais velha, está a fazer o programa Erasmus. “Custa um bocadinho”, confessa Maria João, “mas faz parte da educação”. Para esta mãe, trata-se de ganhar “abertura para o mundo” e de incentivar os jovens a “interagirem com os outros fora da zona de conforto”. E garante que é uma experiência da qual saem “mais bem preparados para os dias de hoje”.

Mesmo assim, não é por irem para outro país que estes jovens deixam de ter de cumprir as obrigações académicas a nível nacional. No caso dos que querem fazer o último ano do secundário no estrangeiro, há que voltar e fazer os exames nacionais. Maria João conta que, por exemplo, o filho que foi para a Dinamarca vai já com o ensino secundário concluído. O plano é regressar no início de 2019, a tempo de fazer melhoria de notas e depois ingressar na faculdade.

Já Cláudia Calisto diz que nos Estados Unidos, para onde foi a filha Leonor, “as equivalências [com as disciplinas portuguesas] são mais possíveis”. Mesmo assim, declara: “Já encaramos a possibilidade que este seja um ano de intervalo.”

“Temos uma bolsa de famílias que costuma estar disponível” para cooperar com a AFS, mas costuma ser “um stress para conseguir o número necessário para satisfazer a procura”, explica a responsável pela AFS Portugal, Rita Saias. Mesmo assim, “não é porque um estudante vai que os pais são obrigados a receber”.

A escolha das famílias “não tem nada a ver com o background académico ou com o escalão financeiro”, assegura Rita Saias. Desde que exista espaço para o estudante e disponibilidade para o receber como um filho, “não se fazem distinções”. Por isso, pode ser uma família monoparental, homossexual, um casal jovem ou mais velho, podem até nem ter filhos ou ser apenas uma pessoa que vive sozinha.

O processo de selecção é relativamente simples. Primeiro, há uma candidatura da família, com “algumas questões básicas”. Depois, há um voluntário que visita a residência e avalia as motivações, disponibilidade e ajuda a “desmistificar” algumas ideias.

Quanto aos jovens, “já fazem parte do programa um ano antes” de chegarem ao país que os vai receber. Quando cá chegam, há voluntários encarregues de seguir os jovens e há um acompanhamento mensal para “garantir que está tudo bem”.

Para toda a vida

A primeira barreira que estas famílias sentem será a da língua. A comunicação faz-se em inglês e há um esforço para que os jovens comecem a falar português o mais depressa possível. Na casa de Cláudia e Jorge, por exemplo, os móveis e objectos já estão cobertos de pequenos post-its onde se podem ler os respectivos nomes em português para que a aprendizagem de Esin seja mais rápida.

Ultrapassadas eventuais dificuldades iniciais, este contacto com os jovens não é coisa que fique só pela sua estadia. “É uma relação para toda a vida”, diz Maria João. E não faltam elogios desta mãe aos seus “filhos de acolhimento”. É que, garante, “estes jovens são muito especiais, não é qualquer um que sai da sua zona de conforto”.

A presidente da AFS, Rita Saias, que também participou nestes intercâmbios quando frequentava o ensino secundário, confirma este laço especial que se cria: “São pessoas que sinto que me conhecem melhor do que a minha própria família. Foi uma experiência que mudou completamente a minha vida.”

A família de acolhimento de Emmanuel é de Setúbal. Esta é a sua primeira vez na Europa, mas não é uma estreia fora de casa. “Já estive no Panamá, no México e na Guatemala.” Quanto a esta experiência, diz que é uma oportunidade para “amadurecer e ganhar consciência das decisões que o afectam a si próprio”. “Esta é uma oportunidade que não surge duas vezes.”

Para Thitinan importa absorver o máximo da cultura e língua portuguesa e poder partilhar tudo o que aprendeu quando regressar à Tailândia. Quanto aos pais, garante, “insistiram que viesse”.

Notícia do Público de 17/09/2018.