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Equipas nacionais conquistam apoio

Dois projectos científicos portugueses foram seleccionados para o programa CaixaImpulse e terão um apoio que pode ir até aos 100 mil euros.

Uma das equipas quer eliminar infecções ósseas crónicas com uma única cirurgia. A outra está a desenvolver um revestimento para diminuir as infecções hospitalares causadas por dispositivos médicos como os cateteres.

Estes projectos de equipas diferentes de cientistas foram os trabalhos portugueses seleccionados pelo programa espanhol CaixaImpulse e podem vir a ter um apoio de até 100 mil euros.

Qual o objectivo do programa? Facilitar a transição para a sociedade do conhecimento científico realizado em centros de investigação, universidades e hospitais através de patentes, da criação de empresas ou de acordos de transferência.

Esta é a quarta edição da iniciativa da Fundação Bancária la Caixa e da Caixa Capital Risc – que tem o apoio do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia, um consórcio de empresas, universidades e centros de investigação – e a segunda vez que cientistas em Portugal da área da saúde e da biomedicina podem participar.

Este ano foram apresentados 85 projectos, segundo um comunicado sobre o programa: 73 de Espanha, sete de Portugal, quatro de Itália e um da Grécia. Desses, seleccionaram-se 20 projectos, dos quais foram escolhidos dois portugueses.

Por enquanto, esses projectos têm 50 mil euros garantidos. Se passarem para uma segunda fase em Novembro, o apoio pode chegar até aos 100 mil euros. Além do financiamento, também haverá um programa de acompanhamento ou feedback sobre o projecto por parte da indústria ou de especialistas da área.

Vamos aos projectos portugueses seleccionados. Susana Sousa e Fernando Jorge Monteiro – do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), no Porto, e líderes do projecto – querem descomplicar o tratamento das infecções ósseas crónicas associadas à úlcera do pé diabético, implantação de próteses e às fracturas expostas.

“Não existe nenhuma solução que consiga eliminar completamente essa infecção e fazer a reconstituição óssea com um único material e numa única cirurgia”, aponta Susana Sousa.

Actualmente, o tratamento para essas infecções – que afectam cerca de quatro milhões de pessoas por ano no mundo – é feito em, pelo menos, duas cirurgias.

“Há uma primeira cirurgia para eliminar todos os tecidos infectados chamada ‘desbridamento’. Segue-se a administração de um antibiótico intravenosamente e o internamento hospitalar que, normalmente, é prolongado: pode durar entre quatro e seis semanas”, explica Susana Sousa.

“No final, o médico avalia se ainda existe infecção. Normalmente, aquilo que acontece é que há infecção e começa assim uma nova ronda. Isto é, uma cirurgia para tirar o tecido infectado seguida da administração intravenosa do antibiótico. Só quando existe a certeza de que não há infecção é que se faz uma última cirurgia para substituição óssea.”

Aquilo que a equipa de Susana Sousa propõe é que numa única cirurgia se faça o desbridamento e se introduza um material (desenvolvido pela sua equipa) que tem antibiótico. “[Esse antibiótico] vai ser libertado localmente de uma forma sustentada e controlada até três semanas [destruindo as bactéria e eliminando a infecção] ”, refere a cientista.

No final, será esse mesmo material que fará a regeneração óssea no local da lesão. “O material mimetiza o osso porque tem componentes idênticos aos dos nossos ossos e tem uma estrutura porosa. O que vai fazer é: há uma vascularização, as células do osso são chamadas e há formação de um novo osso.”

Ao eliminar vários passos no tratamento, há uma redução de custos porque só se fará uma cirurgia e o tempo de hospitalização é reduzido.

“Também há um maior bem-estar para os doentes porque têm menos dores, não ficam limitados ao hospital, há um risco reduzido de amputação e consegue-se recuperar muito mais rapidamente”, aponta Susana Sousa.

Ainda não se estimou o custo da intervenção, mas Fernando Jorge Monteiro adianta: “Imagine a poupança que isto representará para o Serviço Nacional de Saúde.”

A equipa já concluiu a prova de conceito para o material. Espera agora conseguir com este prémio não só avançar com os ensaios clínicos como poder apresentar o projecto a futuros investidores.

Susana Sousa diz que ainda é prematuro dizer quando esta tecnologia estará disponível no mercado, mas Fernando Jorge Monteiro acrescenta: “Se tudo correr bem, será coisa para daqui a quatro ou cinco anos.”

Revestimento contra bactérias
Já Fabíola Costa – líder do projecto da outra equipa e também do i3S – está a desenvolver uma tecnologia para que seja possível diminuir as infecções hospitalares relacionadas com dispositivos médicos como os cateteres.

Estima-se que num só dia, cerca de 80 mil doentes na Europa adquiram, pelo menos, uma infecção durante a assistência médica, sendo muitas delas relacionadas com a aplicação de cateteres, segundo o comunicado.

“Estamos a desenvolver um revestimento que permite impedir a aderência de bactérias à superfície dos dispositivos médicos e, desta forma, impedir a formação de um biofilme que seria gerador de infecção”, explica a cientista.

Que revestimento é? É um filme muito fino produzido a partir de um polímero obtido através de uma microalga. Fabíola Costa indica que não quer criar um produto de raiz e explica que esse revestimento será adaptado aos dispositivos já existentes no mercado através do licenciamento às respectivas empresas.

Neste momento, a equipa está a terminar a prova de conceito para adaptar o revestimento a cateteres urinários, mas também pretende adequá-lo a drenos, tubos endotraqueais ou a cateteres para diálise peritoneal.

Poderão beneficiar do revestimento, sobretudo, pessoas com doenças crónicas, imunossupressoras, diabetes, doentes com idade avançada ou com doenças oncológicas.

No próximo ano, o objectivo da equipa será obter um protótipo do produto. “A partir do momento em que tenhamos o produto final, podemos começar a realizar testes que comparem não só o nosso produto com os cateteres existentes no mercado como ter uma noção mais real da percentagem de prevenção e da redução de custos que conseguimos alcançar”, diz Fabíola Costa.

Quando chegará ao mercado? “É um pouco difícil de saber, mas gostaria de ter o protótipo nos próximos dois anos. Portanto, em três anos poderá ser possível que chegue [ao mercado]. Dependerá muito de cada passo e das dificuldades que poderão surgir.”

Notícia do Público de 10/09/2018.