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Química e ópera

A viagem por mais de 400 anos de ópera e pelas substâncias que alimentam os seus enredos inspirou o livro “Poções e Paixões: Química e Ópera”, uma obra de divulgação que funde a ciência e a arte, escrita pelo químico João Paulo André.

É possível encontrar traços comuns entre uma mulher que prepara charutos e uma aristocrata que, de manhã, recebe uma multidão em sua casa para beber chocolate quente. Estes dois episódios são representados em óperas.

A primeira está na ária de entrada da protagonista de Carmen, obra de Georges Bizet estreada em 1875. A segunda encontra-se em O Cavaleiro da Rosa (1911), de Richard Strauss. Mas, olhando mais a fundo as substâncias que chamam a atenção das personagens, é possível perceber o que as constitui e os efeitos que elas podem gerar.

É a química que explica que o tabaco é composto por nicotina e que o cacau pode estimular a produção de serotonina e, consequentemente, a sensação de prazer graças a moléculas como a teobromina e o triptofano.

Estas duas referências encontram-se nos dez capítulos e nas mais de 400 páginas do livro Poções e Paixões: Química e Ópera, de João Paulo André, químico de profissão e consumidor de ópera por paixão.

A obra do professor e investigador na Escola de Ciências da Universidade do Minho, editada agora pela Gradiva e apresentada em Braga na semana passada, percorre a história da criação operática, seguindo em frente e voltando atrás no tempo, para explicar o papel dos metais – o ouro e o chumbo são protagonistas da primeira ópera, Dafne, estreada em 1597, em Florença –, mas também das drogas, do álcool, das plantas e de substâncias usadas nas duas guerras mundiais.

A viagem, assume o cientista ao PÚBLICO, até tem um carácter aparentemente circular, já que “começa com o fogo e termina com o fogo”, mas esses olhares são díspares.

Evocado, no primeiro capítulo, como “fonte de calor e de luz” e “agente transformador da matéria”, o fogo é comparado à energia criada após a fusão dos núcleos de hidrogénio em hélio no Sol, representado como fonte de vida na Terra em Iris, ópera de Pietro Mascagni (1898).

Percorridas mais de 300 páginas, o fogo ressurge nos últimos parágrafos do livro como resultado da explosão da primeira bomba nuclear (de plutónio), chamada Gadget, num teste realizado num deserto do Novo México, nos Estados Unidos, a 16 de Julho de 1945, antes dos ataques nucleares a Hiroxima e Nagasáqui, no Japão, responsáveis por mais de 200.000 mortes.

A produção das armas nucleares no Projecto Manhattan inspirou Doctor Atomic, uma ópera do norte-americano John Adams (2005), com uma “carga emocional fortíssima” e “momentos de grande beleza”, descreve João Paulo André. “Tem uma ária lindíssima, Batter my heart, baseada num poema de John Donne, do século XVII. Ninguém fica insensível quando a ouve e vê.”

Mas foi graças aos venenos que o livro começou a ganhar vida, há sete anos. A palestra “Ópera, Veneno e Outros Químicos”, então apresentada na sua universidade, abriu ao especialista em química inorgânica as portas para palestras noutras universidades e também de espaços culturais, e motivou-o a escrever um artigo que viria a tornar-se o mais lido de 2013 na revista científica Journal of Chemical Education, da Sociedade Americana de Química.

A introdução da ópera no universo da química a partir dos venenos deveu-se à relação óbvia que existe entre ambos, diz o professor. “É a ligação mais simples, mais directa. Numa análise muito sumária, serão mais de 20% os enredos que recorrem a venenos”, esclarece.

Depois da serpente que mordeu Eurídice em L’Orfeo, de Claudio Monteverdi (1607), o veneno sempre acompanhou a morte na ópera, quer por homicídio, por suicídio ou por acidente. Em muitas obras, as substâncias não são referidas. Noutras, como Suor Angelica, de Giacomo Puccini (1918), há alusão específica à oleandrina, ao louro-cerejo, à cicuta e à beladona, as plantas que geram o veneno com o qual a protagonista se suicida.

Mas se o veneno é um dos protagonistas da ópera, o “amor é a grande matéria-prima”, com as histórias “de paixão, de vingança e de ciúme” em seu torno, diz o cientista. No penúltimo capítulo do livro, o que mais prazer lhe deu enquanto escrevia, o autor discorre por histórias de amor como a de Paolo e Francesca, em Francesca da Rimini, ópera de Riccardo Zandonai (1914), enquanto fala de feniletilamina, dopamina e noradrenalina (mensageiros químicos do cérebro), moléculas que estão associadas ao amor.

O contacto entre a química e a ópera não se restringe, contudo, às tramas exibidas em palco. As referências do livro estendem-se também a autores que trabalharam nos dois campos, como o russo Aleksandr Borodin, químico orgânico que é hoje reconhecido pela ópera O Príncipe Igor, estreada em 1890, e o inglês Edward Elgar, compositor da marcha Pompa e Circunstância (1901) e da ópera incompleta A Senhora Espanhola (1933), que tinha um laboratório de química em casa.

Este laço entre os dois campos não surpreende João Paulo André. Se a ópera, diz, pode ser vista como uma “arte total”, por conjugar música, teatro e artes plásticas, a química, enquanto “ciência central”, entre a física e a matemática, de um lado, e a biologia e a geologia, do outro, é também como “a mais poética das ciências”.

“A essência da química é extremamente poética, com os átomos, as moléculas e as transformações que prevê”, considera. “Não admira que os músicos, pessoas de sensibilidade apurada, gostem de química.”

“Há interesse pela ciência”
Na obra, as vozes dos barítonos, dos tenores e das sopranos procuram levar a química ao “grande público”, assume João Paulo André, mas a ciência presente nas óperas de Mozart, de Verdi ou de Wagner pode também ser um veículo para a expansão da cultura humanista junto daqueles para quem as fórmulas químicas e as experiências são mais familiares – os seus próprios alunos, por exemplo.

“Eles não vão ver nada de muito novo em termos de química, mas vão aprender um bocadinho da história da humanidade. Esta bagagem das humanidades e das artes faz-lhes falta”, considera.

O investigador reconhece, no entanto, que a população tem hoje mais interesse pela ciência em comparação com o início da década de 90, altura em que começou a leccionar na Universidade do Minho, já depois de se ter licenciado pela Universidade de Coimbra, cidade de onde é natural.

“Não havia essa preocupação de divulgar ciência por parte das universidades, como há hoje. Não tive essa experiência como divulgador, porque não havia o que há hoje”, recorda.

Tal interesse, diz, sente-se particularmente em questões relacionadas com o ambiente, mas também é visível nas aparições não só da química, mas também da física e da biologia nos meios artísticos, nomeadamente em peças de teatro como Copenhaga, de Michael Frayn (1998), com os pioneiros da física quântica Werner Heisenberg e Niels Bohr e a mulher do último, Margaret Bohr, e Fotografia 51, de Anna Ziegler (2015), que alude à imagem de ADN obtida a partir da difracção por raios X por Rosalind Franklin, encarnada por Nicole Kidman.

“Nos últimos dez a 20 anos, tem havido peças de temática científica que são grandes sucessos de público. É um indicador que o público tem interesse”, afirma João Paulo André.

Unir duas culturas que teimam em viver separadas
“Este livro ajuda a resolver o problema das duas culturas, a dicotomia entre a cultura artística e a cultura científica”, referiu Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra, durante a apresentação de Poções e Paixões: Química e Ópera.

Autor do prefácio da obra, o cientista lembrou uma conferência proferida pelo físico-químico e romancista Charles Snow, em Cambridge (Reino Unido), no ano de 1959, onde era retratada a “comiseração” que as pessoas com cultura artística sentiam ao “ouvirem falar de cientistas que nunca leram uma obra importante de literatura inglesa”, como um texto de Shakespeare, e a “ignorância assustadora” que os cientistas atribuíam a quem não conhecia a segunda lei da termodinâmica – o aumento do estado de desordem (entropia) em qualquer sistema físico isolado é irreversível.

Para Carlos Fiolhais, o problema reside sobretudo na “incompreensão” de ambos os lados, ideia com a qual João Paulo André concorda. “As pessoas, muitas vezes, pensam que o que é ciências é ciências e o que é letras é letras, como se fossem duas realidades estanques”, reitera.

Notícia do Público de 11/06/2018.