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Isolamento social afeta o cérebro?

Estudo em ratinhos mostra que um isolamento social prolongado leva à produção em excesso de um produto químico no cérebro que, por sua vez, está associado a um aumento de agressividade e medo.

Primeiro estudaram os efeitos do isolamento social crónico em moscas-da-fruta, um modelo animal muito usado pelos cientistas, e descobriram que existia um produto neuroquímico que desempenhava um papel importante na agressividade.

Agora, a mesma equipa de cientistas encontrou o mesmo sinal químico no cérebro de ratinhos que estiveram isolados durante um período longo e demonstraram como está associado a um aumento do medo e da agressividade.

Mais do que isso, perceberam que é possível bloquear a produção deste composto químico no cérebro e anular os seus efeitos negativos. O estudo publicado na revista Cell pode ser importante para novas estratégias de tratamento de doenças mentais em humanos.

Uma equipa liderada por David J. Anderson, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, nos EUA, publicou um artigo em 2014 na Cell que mostrava como um sinal químico estava associado a um aumento da agressividade após uma situação de isolamento social, num estudo com moscas-da-fruta.

Agora, a mesma equipa observou o que se passava no cérebro de ratinhos, dissecando as raízes do stress causado pelo isolamento social crónico.

No artigo publicado agora, os cientistas apresentam um dos mecanismos desencadeados pelo isolamento social crónico em ratinhos e que faz com que o cérebro mude de uma maneira profunda.

E, desta vez, mais do que apenas a agressividade, os investigadores procuraram também o “gatilho” para o medo ou a ansiedade que estão associados ao stress provocado pelo isolamento social crónico.

“Conseguimos identificar um neuropeptídeo – uma pequena molécula no cérebro que as células usam para comunicar umas com as outras – que controla vários comportamentos que estão associados ao isolamento social crónico. Percebemos que este componente da família de neuropetídeos da taquiquinina, o Tac2, era produzido em excesso no cérebro dos ratinhos. Aumentava em várias regiões do cérebro”, explica ao PÚBLICO a primeira autora do artigo, Moriel Zelikowsky.

O comunicado do Instituto de Tecnologia da Califórnia refere um exemplo de uma das experiências. “Ao encontrar um estímulo ameaçador, os ratinhos que foram socialmente isolados permanecem imóveis no mesmo local por muito tempo depois de a ameaça passar, enquanto os ratinhos normais retomam a sua actividade logo depois de a ameaça desaparecer.”

O trabalho permitiu ainda que os investigadores percebessem que um dia de isolamento social não é suficiente para causar um efeito. Segundo explicam, a overdose do sinal químico e os seus efeitos negativos no comportamento surgiram quando os ratinhos foram submetidos a uma espécie de pena na “solitária” no laboratório, privados de qualquer contacto com outros animais durante duas semanas.

O aumento do sinal químico no cérebro dos ratinhos não era subtil. Era evidente. “Entre oito e dez vezes mais do que o normal”, esclarece a investigadora. Por outro lado, esta produção em excesso do composto neuroquímico acontecia em diferentes regiões do cérebro.

Uma das mais importantes revelações desta investigação estará no facto de ser possível reverter estes efeitos com um fármaco que actua nos receptores destes sinais. “Descobrimos que, se tentássemos manipular este mecanismo para bloquear o sinal químico em determinadas regiões do cérebro, conseguíamos atenuar ou mesmo anular alguns destes efeitos negativos do isolamento social”, sublinha Moriel Zelikowsky.

Na experiência com ratinhos, os cientistas verificaram que o “tratamento” com um composto levava a uma recuperação do comportamento dos ratinhos isolados, permitindo mesmo uma nova reinserção no grupo sem que atacassem os companheiros, ao contrário do que faziam os isolados e agressivos animais que não foram tratados.

Para testar o “poder” deste composto neuroquímico, os investigadores também encontraram uma forma de produzir artificialmente este sinal no cérebro de ratinhos que estavam inseridos em grupos. “Quando fizemos isso, vimos que imitavam muitos dos efeitos do isolamento social”, constata David J. Anderson.

Por fim, usaram o mesmo fármaco para fazer um levantamento dos sinais em diferentes regiões do cérebro e perceberam que têm diferentes efeitos. Assim, o bloqueio do sinal na região cerebral da amígdala eliminou o medo, mas não a agressão. A mesma estratégia usada no hipotálamo eliminou a agressão, mas não o medo.

A solidão das pessoas
Depois do passo entre a mosca-da-fruta e os ratinhos, falta saber se este conhecimento pode ser útil para os humanos. As experiências ainda não foram feitas, mas o ponto de partida é promissor, uma vez que sabemos que este sinal químico também é produzido no nosso cérebro.

“O facto de haver alguma conservação das moscas-da-fruta para os ratos faz-me pensar que esse peptídeo pode ter algum papel em algumas formas de stress e nos seus efeitos no cérebro dos seres humanos”, diz David Anderson no comunicado da revista Cell sobre o estudo.

Por outro lado, o fármaco que os investigadores usaram no estudo com ratinhos para bloquear esta reacção “tóxica” do cérebro e atenuar ou eliminar os seus efeitos negativos tinha sido desenvolvida para tratar distúrbios como a esquizofrenia e a doença bipolar, mas sem grande sucesso.

“Este nosso estudo levanta a possibilidade de que este fármaco possa ser reaproveitado para tratar outros distúrbios psiquiátricos que estão associados ao isolamento social em seres humanos – não apenas em casos de encarceramento em celas solitárias, mas talvez no stress de um luto ou outros tipos de stress”, admite o líder da equipa de cientistas.

Moriel Zelikowsky refere outra importante vantagem que este estudo poderá trazer para os humanos: “Identificar um neuropeptídeo que está especificamente relacionado com o stress de isolamento crónico e saber quais são as regiões associadas a certos comportamentos, como fizemos neste estudo, pode ajudar-nos a definir um alvo para atacar com um fármaco que, assim, terá melhores resultados e menos efeitos secundários, em vez de afectar todo o cérebro.”

Num esforço de tradução dos resultados obtidos em ratinhos, a investigadora calcula que uma situação de isolamento de duas semanas possa equivaler a um período de seis meses a um ano para uma pessoa. E que tipo de isolamento estamos a falar?

“A tradução literal seria algo muito semelhante ao que acontece quando colocamos uma pessoa numa cela solitária. Sabemos que isso provoca danos na saúde mental”, diz, admitindo que há actualmente outras formas preocupantes de isolamento social que podem ter consequências na saúde mental.

Por exemplo: “Sabemos que, com o aumento do uso das redes sociais, há jovens que passam muito menos tempo a interagir fisicamente com outras pessoas, por isso estão, na verdade, muito mais sozinhos do que alguma vez estiveram. E isto pode provocar algum tipo de resposta nalgumas zonas do cérebro. Não sabemos.”

Notícia do Público de 21/05/2018.