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Raias usam as fontes hidrotermais

Equipa de biólogos descobriu uma espécie de raia que utiliza as fontes hidrotermais para acelerar o desenvolvimento dos seus embriões.

O fundo do oceano é um mistério, sempre o foi. A cada dia que passa tentamos desvendar cada vez mais do que vai acontecendo no (incrível) mundo submarino.

Agora foi a vez da equipa encabeçada por Pelayo Salinas-de-León, um biólogo marinho, que numa investigação da Estação de Investigação Charles Darwin, nas Galápagos, descobriu que existe uma espécie de raia a incubar os seus ovos usando o calor vulcânico emitido pelas fontes hidrotermais naquela zona.

Um “comportamento único” observado pela primeira vez no mundo marinho, como refere o artigo científico da equipa de investigadores.

A descoberta veio após a exploração do campo hidrotermal Iguanas-Pinguins, a cerca de 1600 metros de profundidade e a 45 quilómetros da costa norte da ilha de Darwin (a ilha mais a norte do arquipélago pertencente ao Equador).

Munidos de um veículo subaquático de controlo remoto (ROV, na sigla em inglês), os investigadores descobriram 157 cápsulas com ovos fertilizados no seu interior, de tons amarelo e castanho, do tamanho de um telemóvel e com os prolongamentos pontiagudos nos vértices.
Com o braço robotizado do ROV Hércules, apanharam quatro dessas cápsulas, para análises no laboratório.

Feitos os testes de ADN, os resultados estavam à vista: os embriões pertenciam à espécie de raia Bathyraja spinosissima, comummente conhecida por raia-branca-do-pacífico, que até ao momento foi apenas observada nas ilhas Cocos, ao largo do Oregon (nos Estados Unidos), na Costa Rica e nas Galápagos.

A verdade é que, logo após a descoberta das fontes hidrotermais em profundidade em 1977, se soube que nestas áreas de dorsais submarinas, onde existe um afastamento das placas tectónicas com criação de nova crosta terrestre e, por isso, se regista um vulcanismo constante, se verifica um enorme aglomerado de biodiversidade.

Nos Açores, as primeiras fontes hidrotermais de profundidade foram descobertas nos anos 90, e desde então muitos outros campos têm sido detectados.

Contudo, neste caso não foi apenas isso que foi observado. A equipa descobriu que 58% das cápsulas com ovos deste peixe cartilaginoso foram colocadas a cerca de 20 metros dentro das chaminés de fontes hidrotermais “negras”, o tipo de fontes mais quentes cuja água pode ultrapassar os 300 graus Celsius.

Sim, leu bem, 300 graus Celsius, a grandes pressões. Em contacto com a água fria do oceano, os minerais dissolvidos provenientes da crosta terrestre precipitam-se e aí dá-se o fenómeno que origina o termo aplicado a estas fontes, uma vez que dela são expelidos fluidos quentes que por vezes se assemelham a fumo, numa mistura de água, gases, sais e metais. Mas isso é outra história.

Os biólogos descobriram ainda que 89% das cápsulas com ovos foram colocadas em sítios onde a água é mais quente do que a média, sendo que tal comportamento não é novidade na biologia terrestre, pelo menos.

Numa ave rara do Tongo, a Megapodius pritchardii, foi observada a incubação de ovos recorrendo a solo vulcânico aquecido. Há milhões de anos certos dinossauros saurópodes do período Cretácico fariam o mesmo.

Ora as raias que vivem a grande profundidade têm um dos maiores períodos de incubação dos ovos relatados no reino animal. No caso dos ovos desta espécie, à temperatura ambiente, os biólogos estimam que a incubação demoraria algo como 1500 dias, ou seja, cerca de quatro anos. Por isso, pensam que esta raia está assim a utilizar as fontes hidrotermais para acelerar o desenvolvimento dos seus embriões.

Apesar de estar classificada como uma espécie cuja conservação é pouco preocupante na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, os investigadores alertam para o “elevado risco de extinção” das raias existentes a grande profundidade.

Os motivos, referem, prendem-se com a longa vida destes peixes associada ao um desenvolvimento lento e maturidade tardia. “Promover uma melhor compreensão acerca do desenvolvimento das raias e do seu habitat é vital para o desenvolvimento de estratégias de conservação eficazes, bem como a identificação e protecção destes locais de incubação que podem ser ameaçados pela pesca em águas profundas”, lê-se na revista Scientific Reports, onde esta descoberta foi publicada.

Apesar de ser o maior bioma, o mundo subaquático é o ecossistema menos explorado em toda a Terra. Se por um lado as fontes hidrotermais foram descobertas há já 40 anos, por outro a logística extremamente complexa que é necessária para as investigar dificulta um estudo aprofundado da sua grande biodiversidade.

Ali, onde a luz do Sol não chega, a base da cadeia alimentar não depende da não da fotossíntese, mas da síntese de elementos químicos (a quimiossíntese). As fontes hidrotermais, uma das grandes descobertas biológicas do século XX, mostraram assim que a vida não depende só do Sol.

Notícia do Público de 19/02/2018.