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Neve na Antárctida aumentou 10%

Um estudo britânico analisou a queda de neve no continente gelado entre 1800 e 2010. Os resultados elevam as esperanças de desaceleração no aumento do nível das águas dos oceanos.

A queda de neve na Antárctida aumentou em cerca de 10% nos últimos 200 anos, de acordo com os resultados de um estudo apresentado nesta segunda-feira na reunião da União Europeia de Geociências (UEG), em Viena, Áustria. A equipa internacional de investigação, liderada pela British Antarctic Survey, analisou 79 núcleos de gelo recolhidos no continente antárctico, de forma a analisar as alterações na queda de neve e o impacto no nível das águas do mar.

O estudo, publicado na revista Climate of the Past, mostra que houve um aumento significativo na queda de neve entre 1800 e 2010 – o que pode ter impacto global no nível das águas do mar. Ou seja, os resultados da investigação mostram que a crescente queda da neve pode contribuir para desacelerar o aumento do nível do mar. “Existe uma necessidade urgente de entender a contribuição do gelo antárctico para o aumento do nível do mar e foram usadas várias técnicas para determinar o balanço entre a queda de neve e a perda de gelo. Quando a perda de gelo não é restituída pela queda de neve, o nível do mar aumenta”, explica Liz Thomas, principal autora do estudo, citada pelo site de notícias especializado em ciência Phys.org.

O aumento registado foi de cerca de 272 mil milhões de toneladas de neve – o equivalente ao dobro do volume de água do Mar Morto. Posto de outra forma, esta seria a quantidade de água necessária para submergir a Nova Zelândia até uma profundidade de um metro, de acordo com informações da estação televisiva BBC.

A maior parte da neve caiu na Península Antárctica, no Hemisfério Ocidental. “Os nossos resultados mostram uma mudança significativa no balanço da massa superficial [de gelo] durante o século XX. A maior contribuição é da Península Antárctica, onde a queda de neve média anual durante a primeira década do século XXI é 10% mais elevada do que no mesmo período no século XIX”, acrescenta Thomas citada pelo site Phys.org.

A investigadora da British Antarctic Survey (BAS) afirmou ainda que a pesquisa tinha como objectivo contextualizar as actuais perdas de gelo que se têm vindo a registar, pelo que “a ideia era obter uma visão tão abrangente do continente quanto possível”, disse à estação televisiva BBC. Para uma melhor compreensão das alterações do nível dos oceanos, “é de vital importância obter um entendimento completo das mudanças passadas e presentes no balanço da massa superficial [de gelo] e a sua relação com o sistema climático”, acrescenta o artigo científico.

Recentemente, várias investigações têm dado conta da quantidade de massa de gelo que se tem vindo a perder de grandes glaciares como o Glaciar Thwaites e em regiões como Pine Island. No entanto, Thomas explicou à BBC que “não existia um grande conhecimento sobre a forma como a queda de neve se tem vindo a alterar”. Em termos gerais, “supunha-se que, até agora, a queda de neve não tinha tido alterações significativas e que se tinha vindo a manter estável”, pelo que este estudo vem mostrar o contrário, de acordo com a estação britânica.

Os objectos de análise – 79 núcleos de gelo recolhidos ao redor de todo o continente – são essencialmente longos cilindros de material solidificado ao longo de vários anos. Anteriormente, as alterações na Antárctida eram analisadas através de imagens de satélite que apenas remontam a algumas décadas, enquanto a análise dos núcleos de gelo permite obter dados ao longo de várias centenas de anos. Thomas e a restante equipa de investigação analisaram os compostos químicos dos núcleos – como, por exemplo, o peróxido de hidrogénio –, o que permitiu determinar não apenas o período de tempo em que a neve caiu, mas também a quantidade de precipitação. “Os núcleos de gelo têm o potencial de registar a quantidade de acumulação de neve num local específico durante um intervalo de escalas de tempo”, lê-se no artigo científico.

A maior queda de neve registada durante o período em análise gerou uma massa adicional na camada de gelo da Antárctida de cerca de sete mil milhões de toneladas por década, entre 1800 e 2010. Se considerarmos apenas o período de 1900, o aumento da massa de gelo foi de 14 mil milhões de toneladas por década. No século XIX, a Península Antárctica registou um aumento significativo da temperatura, assim como da queda de neve, sendo que “a teoria prevê que, à medida que a Antárctica aquece, a atmosfera contém mais humidade e isso pode levar, consequentemente, a uma maior queda de neve”, segundo a cientista citada pela BBC.

Contudo, a equipa de investigação faz questão de lembrar que os aumentos na queda de neve não invalidam as observações que dizem respeito ao degelo, registadas pelos satélites ao longo dos últimos 25 anos. Embora o aumento na queda de neve, desde 1900, tenha ajudado a baixar o nível das águas do mar em cerca de 0,04 milímetros a cada década, o aquecimento global tem provocado o degelo da parte inferior dos glaciares – o que, pelo contrário, provoca o aumento do nível das águas.

Anna Hogg, investigadora da Universidade de Leeds, no Reino Unido, tem recorrido a imagens de satélite para medir a forma e a massa da camada de gelo na Antárctida. A cientista esclarece à BBC que “mesmo com esses grandes eventos de queda de neve, a Antárctida continua a perder massa de gelo a um ritmo mais rápido do que está a ganhar massa acumulada pelas quedas de neve, principalmente nas regiões de conhecida dinâmica instável do gelo”.

A investigação anterior do mesmo tipo analisou apenas 16 núcleos de gelo, o que torna este novo estudo mais representativo, revelando informações importantes para a “nossa compreensão da verdadeira natureza da alteração na massa superficial da Antárctida no passado e para fornecer uma referência precisa de como [a camada de gelo] pode alterar no futuro”, conclui a pesquisa.

As três camadas de gelo que cobrem a Antárctida contêm cerca de 70% da água doce do nosso planeta, sendo que, caso todas estas camadas de gelo derretessem devido ao aquecimento global, a Antárctida elevaria o nível do mar em pelo menos 56 metros, de acordo com informações avançadas pelo jornal Daily Mail.

Notícia do Público de 10/04/2018.