Debate sobre o ensino superior
16 de Março de 2018.
Last king of Portugal: Manuel II
19 de Março de 2018.
Mostrar Tudo

Dormir mal nos envelhece?

Investigadores portugueses encontraram uma ligação entre a apneia obstrutiva do sono e oito marcadores de envelhecimento celular que, por sua vez, aumentam o risco de desenvolver várias doenças. A conclusão, dizem, também pode valer para quem “só” dorme mal.

Desafiados a associar o sono ao envelhecimento, uma equipa de investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra encontrou uma ligação entre a síndrome de apneia obstrutiva do sono e oito marcadores do processo de envelhecimento celular prematuro.

Num artigo publicado na revista Cell, os autores centram-se nesta perturbação do sono relacionada com um maior risco de desenvolver várias doenças, desde problemas cardíacos a demências, passando por acidentes vasculares cerebrais.

A propósito do Dia Mundial do Sono – que se assinala esta sexta-feira e que levou o CNC a fazer uma banda desenhada para o PÚBLICO, em colaboração com a Associação Portuguesa do Sono, publicada nas páginas seguintes –, os investigadores avisam que este envelhecimento celular prematuro também poderá ocorrer em pessoas que não sofrem desta patologia e que, simplesmente, dormem mal.

Cena familiar: o marido ressona e, ao lado, a mulher dá-lhe um toque ou cotovelada para que mude de posição. Muitas vezes, nota-se que o “ressonador” tem uma respiração irregular com momentos em que parece que pára de respirar. Provavelmente, temos nesta cama um caso de síndrome de apneia obstrutiva do sono que não se resolve à cotovelada, mas com uma consulta com um médico especialista que deverá fazer o diagnóstico e prescrever o tratamento.

Além deste possível caso clínico, a pessoa que está ao lado e vê o seu sono interrompido também não dorme bem. O mais provável, assim, é que os dois acordem cansados. E o mais provável também é que os dois tenham sofrido um processo de envelhecimento celular agravado pelo sono de má qualidade.

“Fomos à procura de estudos que tivessem tentado relacionar a apneia do sono com marcadores que já se sabia que estão associados ao envelhecimento celular, desde problemas nucleares, mitocondriais, alterações epigenéticas do ADN, entre outros, e encontrámos uma correlação entre a apneia e, pelo menos, oito dos marcadores de envelhecimento”, conta Cláudia Cavadas, investigadora do CNC e uma das autoras do artigo publicado em 2017 por investigadores portugueses na revista Cell.

Trata-se de um artigo de opinião, lembra, em que defendem que este envelhecimento celular prematuro pode facilitar o desenvolvimento de doenças (associadas ao envelhecimento) e fazer com que apareçam mais cedo. “Foi a primeira vez que se juntou as duas coisas, a apneia do sono ao envelhecimento”, diz.

Porém, a investigadora admite que este prejuízo não será exclusivo das pessoas que sofrem de apneia obstrutiva do sono e deverá estender-se a qualquer pessoa que durma mal. “A privação do sono e as noites mal dormidas alteram o nosso ritmo circadiano e também podem promover o aparecimento de alguns dos mesmos marcadores de envelhecimento.”

Até porque, lembra Cláudia Cavadas, a apneia do sono não se caracteriza só pela falta de oxigenação que as paragens de respiração provocam, mas também pelo “sono fragmentado” – ou seja, a alteração do sono, por si só (seja uma insónia ou uma noite mal dormida), pode ter um impacto, refere a investigadora, acrescentando que “algumas das funções que protegem as nossas células podem ficar diminuídas”.

O valor do sono

Entre as várias questões que têm sido discutidas sobre o sono, o médico Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono e outro dos autores do artigo publicado na Cell, refere que está especialmente inquieto com a apneia obstrutiva do sono, as insónias e o facto de, simplesmente, ainda não valorizarmos o sono.

Sobre a apneia sublinha que se caracteriza pela ocorrência de paragens respiratórias (com a duração de dez segundos e uma frequência de, pelo menos, cinco vezes por hora) e pelo ressonar. O problema – que segundo os mais recentes estudos europeus afectará cerca de 49% dos homens e 25% das mulheres (uma prevalência que justifica o exemplo usado em que tínhamos o homem a ressonar) – tem tratamento, ainda que o especialista insista em criticar os tempos demasiado longos de espera por uma consulta de especialidade nos hospitais portugueses.

Joaquim Moita lembra que a apneia está associada a um risco acrescido de acidentes vasculares cerebrais, enfartes, acidentes de viação, entre outros problemas, e que, por isso, “há pessoas que morrem à espera de uma consulta”.

Mas, e apesar da gravidade do problema, há boas notícias. O médico que dirige a Clínica de Medicina do Sono no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra reconhece que em 1990 a apneia era uma doença desconhecida e agora já se tornou célebre. “Esta doença ouve-se”, diz, acrescentando que já muita gente procura a ajuda médica para o tratamento.

Quanto às insónias, Joaquim Moita teme que as pessoas procurem sobretudo ajuda farmacológica, optando pelo consumo de benzodiazepinas muitas vezes sugeridas pelo amigo ou colega de trabalho. De acordo com o especialista, os casos de insónia crónica afectam 10% da população e caracterizam-se por insónias três vezes por semana durante três meses.

E lamenta: “Não valorizamos o sono.” E aqui surge uma lista de erros e dicas. “As pessoas têm de dormir entre sete a nove horas por noite, nunca menos do seis ou mais do que dez”, reclama o médico.

Confrontado com o (mau?) exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, que diz precisar de menos horas do que o recomendado, Joaquim Moita responde com um diplomático “sem comentários”. E riposta, com humor: “O Cristiano Ronaldo farta-se de dormir, esse é um herói que serve de exemplo.”

A lição de bem dormir para ser mais saudável vem ainda acompanhada de outros avisos já conhecidos. Tirar a televisão do quarto e o telemóvel da mesinha de cabeceira, manter um horário regular para dormir e acordar, não consumir álcool, não fumar, ter uma temperatura no quarto entre os 18 e os 20 graus Celsius, não levar problemas para a cama (“Aponte num papel o que não fez hoje e resolve amanhã”), entre outros gestos simples que podem evitar graves problemas de saúde. Enquanto dormimos, podemos diminuir os riscos que corremos quando estamos acordados.

Notícia do Público de 16/03/2018.