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Marte em Omã

Um grupo de “astronautas” está isolado desde a última quinta-feira numa base no deserto de Dhofar, a simular as condições de vida em Marte e a fazer experiências como se estivessem lá. O português João Lousada é um deles e o vice-comandante desta missão.

Um pedaço de Marte (ou a sua simulação) está mais perto de nós. É no deserto árido de Dhofar, em Omã, que até ao final deste mês seis pessoas vão ficar isoladas e a fazer experiências como se estivessem numa verdadeira missão em Marte. Este exercício chama-se Amadeus-18 e tem entre os seus “astronautas” o português João Lousada.

Marte fica a cerca de 54 milhões de quilómetros da Terra, quando os dois planetas estão mais perto. E, mesmo a esta distância, já atingimos vários feitos ao longo da história.

Por exemplo, a Mars 3 (URSS) tornou-se a primeira sonda a pousar lá com sucesso, as Vikings (EUA) deram-nos as primeiras imagens a cores da superfície do planeta vermelho e a 2001 Mars Odyssey (EUA) é a sonda em órbita de Marte há mais tempo em serviço.

E ainda há os robôs, como o Curiosity da NASA (que pousou lá) e do novo Mars 2020 que deverá ser lançado em 2020.

Contudo, a viagem de humanos até Marte é mais complicada. Para isso, terá de ser construída uma nave espacial confortável durante meses, que proteja os astronautas da radiação cósmica e possa levar provisões para a viagem de regresso (ou um método de produção para que isso aconteça). E, claro, têm de ser treinados astronautas.

Agora é no deserto de Dhofar que esse “treino” acontece. Os preparativos para esta missão começaram há mais de dois anos e foram considerados diferentes locais do planeta para ela.

A decisão final foi entre o deserto do Neguev, em Israel, e este deserto em Omã. “Foi escolhido, principalmente, devido às características geológicas que se assemelham a certas estruturas geológicas presentes em Marte”, aponta João Lousada de 29 anos.

“No deserto de Dhofar encontramos indícios de estruturas fluviais que podemos comparar com estruturas eólicas e, assim, perceber melhor como detectar indícios de uma existência prévia de água em Marte.”

E há mais: “Temos uma mineralogia semelhante à existente em Marte, onde podemos analisar e identificar indícios de água no passado”, explica, acrescentando que o tamanho e a destruição dos grãos de areia se assemelham ao “pó marciano”. “Reflecte problemas similares aos que encontraríamos em Marte, o que nos permite verificar a robustez do nosso equipamento.”

Esta missão em Terra é liderada pelo Fórum Espacial Austríaco (OeWF, na sigla original). Entre os parceiros estão várias organizações internacionais de investigação, assim como o Comité Directivo da Amadeus-18 de Omã. No total, segundo João Lousada, mais de 200 pessoas de 25 países estão envolvidas na preparação e execução desta missão.

E, digamos que tem um nome musical: chama-se Amadeus em homenagem ao compositor austríaco Amadeus Mozart, que assinava cartas pessoais com Amadeus. E o 18 (também no nome da missão) é porque este exercício se realiza em 2018.

“O propósito de uma simulação de Marte na Terra é para preparar futuras missões tripuladas ao planeta vermelho”, realça Gernot Grömer, presidente do Fórum Espacial Austríaco e coordenador da missão, num comunicado da instituição.

Como tal, pretende-se estudar e testar equipamentos, técnicas de detecção de vida ou a mobilidade dos rovers neste “terreno marciano” simulado.

João Lousada conta-nos que chegaram ao deserto a 31 de Janeiro para montar o equipamento, preparar a base, fazer testes preliminares e verificar se tudo estava pronto para a missão. “À nossa volta temos apenas deserto, praticamente sem qualquer sinal de vida num raio de vários quilómetros”, descreve.

“A cidade mais próxima, Salalah, encontra-se a mais de três horas de distância. É uma paisagem desoladora, mas posso adiantar que os pores e nasceres do sol são verdadeiramente deslumbrantes.”

Na última quinta-feira (8 de Fevereiro) começou oficialmente a “missão a Marte”. Durante três semanas, seis análogos a astronautas – pessoas treinadas para as simulações espaciais em Terra – da Áustria, Alemanha, Espanha, Países Baixos e de Portugal estarão isolados até 28 de Fevereiro.

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E como vivem nestas três semanas? “Temos uma base que inclui um centro de operações, um quartel para a equipa dormir, uma área de arrumações, várias áreas para experiências, vários veículos para transporte, uma área comum para refeições e uma área para equipar e desequipar os fatos”, enumera João Lousada.

E, a nível da alimentação, acrescenta: “Necessitámos de um planeamento e gestão de mantimentos semelhante ao de uma missão a Marte. Temos um plano de nutrição detalhado desenvolvido pela Universidade para as Ciências Aplicadas à Saúde, em Líncia [Áustria], que tem em consideração as nossas necessidades nutricionais e a validade dos diferentes alimentos”, conta.

“Por exemplo, os primeiros dias são mais ricos em frutas e vegetais frescos, enquanto as conservas e os enlatados estão reservados para os últimos dias.”

Além de análogo a astronauta, o português é o vice-comandante desta missão. “Essa responsabilidade inclui não só [assegurar] o dia-a-dia da missão e a correcta execução das experiências, mas também assegurar que todo o equipamento e mantimentos estão disponíveis e que todos os membros da equipa estão e operam em segurança.”

João Lousada estudou engenharia aeroespacial no Instituto Superior Técnico (Lisboa) e é engenheiro de operações do laboratório europeu Columbus a bordo da Estação Espacial Internacional.

É no Centro de Controlo do Columbus (em Munique, Alemanha) que ajuda os astronautas no seu quotidiano e facilita a investigação que realizam na órbita terrestre. É também engenheiro na empresa alemã GMV Insyen.

Tornou-se astronauta-análogo em 2015 quando foi seleccionado, entre 100 participantes, para usar o fato espacial Aouda da OeWF. Este fato pesa cerca de 50 quilos e tem um sistema com vários sensores biomédicos, controlo térmico ou comunicações.

Depois, ainda tem um sistema (com diferentes pressões) que dificulta o movimento destes astronautas para que se possa simular os efeitos das condições em Marte. O português é voluntário e tem sido treinado para usar este fato.

Neste período de três semanas, a equipa vai realizar experiências de várias universidades, centros de investigação ou até de jovens estudantes em vários campos da ciência, como na astrobiologia, geologia, geofísica, robótica e na psicologia.

Por exemplo, haverá uma estufa insuflável que funciona de forma autónoma e que permitirá o cultivo de pequenos rebentos para se obter alimentos; existirão impressoras 3D para imprimir peças e substituir alguma que se parta e, assim, poder-se-á reduzir as peças necessárias para a missão; ou serão analisadas a fadiga física e mental destes astronautas.

Ainda há outra equipa a trabalhar para esta missão no Centro de Apoio da Missão, na Áustria. Existirá um atraso de dez minutos na comunicação entre as duas equipas, para que simule o tempo de propagação dos sinais entre Marte e a Terra.

João Lousada informa-nos que esta é a primeira missão de simulação de Marte em Omã, mas que a OeWF tem “bastante experiência” e que esta é a sua 12.ª missão de simulação de Marte. Há outras entidades que fazem este tipo de simulações, mas a OeWF testa sobretudo as tecnologias e operações relacionadas com passeios espaciais em Marte.

Por exemplo, a NASA também faz missões análogas de Marte na Terra. No Centro Espacial Johnson (EUA) já se realizaram várias experiências no interior de um armazém, onde havia uma estrutura abóbada com três níveis, sem janelas e revestida com material à prova de som. Lá dentro estavam voluntários.

E em 2019 esta experiência deverá repetir-se. Também a Universidade do Havai dirigiu missões análogas financiadas pela NASA, em 2015 e 2016: numa delas, seis voluntários ficaram fechados durante um ano numa cápsula simuladora do habitat de Marte no interior de um vulcão.

Outras experiências para simular Marte na Terra têm sido feitas, como a Terreno de Marte nas instalações da empresa Airbus Defence and Space, na Inglaterra.

Lá, cientistas liderados pelo engenheiro português Nuno Silva construíram um terreno de 30 metros de comprimento e 13 de largura em que se imitava a areia e as rochas no solo marciano.

O objectivo era testar três protótipos de um robô europeu que irá participar na segunda parte da missão ExoMars.

O sonho de um dia os próprios humanos pisarem Marte tem feito parte das ambições dos últimos tempos. Actualmente, é um dos grandes planos de Elon Musk, fundador da empresa SpaceX, que quer construir colónias humanas lá.Ou até do Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que quer um dia que o país chegue a solo marciano.

Notícia do Público de 12/02/2018.