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Primeiros primatas clonados

São duas pequeninas fêmeas que nasceram há cerca de 50 dias, na China. São o resultado “de carne e osso” do sucesso da equipa de cientistas da Academia Chinesa de Ciências que conseguiu ultrapassar a barreira técnica que impedia o “fabrico” de clones de primatas não humanos com a mesma técnica usada com a famosa ovelha Dolly.

Não sabemos se é Zhong Zhong ou Hua Hua que, nas imagens do vídeo, tenta uma fuga da incubadora, empurrando as paredes transparentes da caixa.

Sabemos apenas que estes dois pequeninos e magricelas macacos são os primeiros clones de primatas não humanos criados com a mesma técnica, transferência de células somáticas, que fez nascer a famosa ovelha Dolly. Está tudo num artigo publicado esta quarta-feira na revista Cell.

Nasceram na China e os cientistas que os criaram asseguram que o seu único objectivo é servir para “benefício humano”. São os modelos animais ideais para o estudo de doenças que afectam as pessoas, como a Parkinson e Alzheimer, argumentam os seus criadores.

É “só” isso. Sobre o medo de estarmos a assistir a um decisivo passo que nos levará até clones humanos, sossegam-nos com a resposta: “Com estes modelos, não precisamos de clones humanos.”

Zhong Zhong e Hua Hua não são os primeiros clones de primatas não humanos. Tetra, um macaco Rhesus também fêmea, que nasceu em 1999 nos EUA foi o primeiro. No entanto, esse foi o resultado do recurso a uma técnica mais simples mas com limitações.

A abordagem (muito usada na criação de gado) é idêntica ao processo que se observa com o nascimento (natural) de gémeos idênticos mas aproveitando o processo de divisão celular ainda em laboratório e depois usando “quatro partes iguais” para implantar em quatro úteros diferentes.

Tetra foi a sobrevivente. Em 2007 também foram anunciados os resultados com Semos, um macaco Rhesus que “doou” as suas células cutâneas que serviram para clonar, pela primeira vez, embriões de macacos. A partir desses embriões, terão sido geradas duas linhas de células estaminais embrionárias.

Se a primeira reacção às imagens de Zhong Zhong e Hua Hua pode ser um sentimento de ternura perante aqueles olhos pretos bem abertos e pêlos despenteados a espreitar na dobra de um cobertor, a segunda emoção poderá estar mais próxima do medo de “qualquer coisa” perigosa no futuro.

Uma equipa de cientistas na China demonstrou que é possível clonar primatas não humanos. O que se segue? Onde isto vai parar? Vão clonar humanos? Calma. Para já, não vamos a lado nenhum. Primeiro, vamos tratar do que aconteceu agora.

A equipa de cientistas de vários departamentos da Academia Chinesa de Ciências, desde o Instituto de Neurociências ao Laboratório de Neurobiologia de Primatas, escolheu a espécie Macaca fascicularis para fazer as suas experiências.

Há vários nomes comuns para esta espécie de macaco do Velho Mundo da subfamília Cercopithecinae, nativo do Sudeste asiático, que é muito usado como modelo animal nas investigações médicas (nomeadamente em ensaios clínicos).

Chamam-lhes macaco de cauda comprida ou macaco caranguejeiro. Nos laboratórios, será mais conhecido por macaco cinomolgo.

Na conferência de imprensa organizada pela revista Cell sobre o artigo, os autores explicaram que Zhong Zhong e Hua Hua – nomes que resultam do desmembramento da palavra chinesa “Zhonghua” e que significará “nação chinesa” – nasceram há menos de dois meses de duas barrigas de aluguer diferentes.

Apesar de terem sido transferidas para as “barrigas de aluguer” na mesma altura, nasceram como dois dias de intervalo. Tudo o resto nestas duas crias será idêntico. Uma das muitas coisas que têm em comum – além do mesmo ADN nos seus cromossomas, como as análises genéticas já comprovaram – será a história que as tornou uma realidade.

Um “difícil e delicado” processo

Apesar de terem sido “feitas” através da mesma técnica que, em Julho de 1996, fez nascer a ovelha Dolly, o processo não foi simples. A mais famosa ovelha do mundo (que morreu há quase 15 anos) foi o resultado de um assinalável avanço no campo da biologia com o sucesso de um processo que consistiu na introdução do ADN de uma célula adulta (no caso em questão, tratou-se de uma célula mamária) num ovócito já esvaziado dos seus genes do núcleo e que foi forçado a desenvolver-se.

A técnica chama-se transferência nuclear de células somáticas (TNCS, na sigla em inglês). Durante mais de 20 anos, os cientistas debateram-se com vários problemas que impediam o sucesso da aplicação desta técnica em primatas não humanos.

Segundo Muming Poo, um dos autores do artigo, este método foi usado com sucesso em cerca de 20 espécies, desde a vaca, ao porco, passando pelo coelho e rato, entre outras. Os clones nasceram. Nos primatas, no entanto, as várias tentativas feitas com esta falharam para frustração dos investigadores. Os primatas pareciam ser resistentes à TNCS.

“Pensámos que talvez fosse porque as células somáticas diferenciadas [que formam os tecidos e órgãos] em primatas são incapazes de activar os genes que são necessários para o desenvolvimento do embrião”, afirmou Muming Poo.

Assim, a equipa começou por optimizar a técnica de TNCS recorrendo a novas tecnologias que permitem visualizar melhor o núcleo do ovócito. Depois, explica o cientista, “promovemos também a fusão das células somáticas, neste caso de fibroblastos (células fetais diferenciadas), com o ovócito que foi ‘desnucleado, para que o seu núcleo [dos fibroblastos] pudesse ser aí inserido”. Um procedimento, adianta, muito “difícil e delicado”.

Aqui, surge a primeira diferença em relação à Dolly. Zhong Zhong e Hua Hua não foram criadas a partir de células adultas mas de outro tipo, fetais diferenciadas.

Aliás, apesar de referirem que continuam a tentar obter resultados com células adultas e que têm actualmente “fêmeas que estão grávidas de células somáticas adultas”, os cientistas admitem que as experiências que fizeram até agora com este material genético falharam (ou as gravidezes não chegavam ao fim ou as crias morriam pouco depois do parto).

79 embriões, 21 fêmeas, seis grávidas

O recurso aos fibroblastos não foi suficiente para ultrapassar a barreira técnica. “Percebemos que o embrião reconstruído não se desenvolvia bem e a maioria acabava por não evoluir para a fase de blastocisto [um embrião com cinco ou seis dias de vida já formado por muitas células] que antecede a transferência do embrião para a barriga de aluguer”, diz Muming Poo que, antes das perguntas na conferência de imprensa, apresentou o projecto.

Foram procurar soluções no campo da epigenética e perceberam que a transferência do núcleo somático podia ser reprogramada através de uma combinação de factores epigenéticos que activam genes necessários para o desenvolvimento de embrião.

Assim, recorreram a “modeladores epigenéticos” para ligar alguns genes e conseguiram aumentar a percentagem de embriões que se transformava em blastocistos, uma fase que já permitia a transferência para o útero das fêmeas.

Esta tecnologia na área da epigenética é relativamente recente, tem cerca de dois ou três anos, notou Muming Poo, para justificar as mais de duas décadas de impasse entre a ovelha Dolly e as macacas Zhong Zhong e Hua Hua. “Aplicámos uma nova tecnologia a um velho problema”, resumiu.

“Com este método optimizado, conseguimos 79 embriões bem desenvolvidos”, conta o cientista. Os embriões, acrescentou, foram implantados em 21 fêmeas e seis ficaram grávidas.

O final da história é previsível, destas seis, duas levaram a gravidez até ao termo. E, assim, nasceram Zhong Zhong e Hua Hua. Como os fibroblastos fetais usados eram de fêmeas, o resultado foram duas macacas.

Porém, os cientistas acreditam que será possível obter clones machos se o material genético usado vier de um macho. Agora que os obstáculos técnicos parecem ter sido ultrapassados, pode ser tão fácil quanto isso.

Zhong Zhong e Hua Hua estão juntas numa incubadora e são alimentadas a biberão. Os cientistas terão discutido a possibilidade de as devolver às “mães” que as geraram mas tiveram receio de que não fossem bem tratadas e optaram por as entregar a “cuidados humanos”.

Durante os próximos meses, estas duas macacas serão estudadas em detalhe. Para já, a equipa de investigadores garante que mostram um desenvolvimento normal, na saúde física e mental. “Não há quaisquer sinais de anormalidades.” Logo que saiam da “unidade de cuidados intensivos”, os animais vão ser submetidos a vários testes.

O desenvolvimento do cérebro será um dos aspectos que vai merecer especial atenção. Paradoxalmente, os cientistas estão particularmente interessados em descobrir as diferenças que podem ser detectadas (também a nível do cérebro) entre estes clones, que são como gémeos idênticos, com o mesmo ADN do núcleo das células e que partilham o mesmo ambiente, os mesmos brinquedos, os mesmos cuidadores. Assim, veremos como o ambiente importa na biologia.

Começar com Parkinson, acabar com o medo

Mas a principal missão de Zhong Zhong, Hua Hua, e dos clones que se seguirão, será contribuir para o estudo de doenças humanas como modelos animais. Além da vantagem de serem os animais mais próximos dos humanos (em termos evolutivos), a técnica usada nestas experiências permite ligar e desligar genes, bem como introduzir mutações, “construindo” modelos à medida das necessidades da medicina.

As doenças que se sabe estarem associadas a mutações genéticas terão prioridade, segundo os cientistas que arriscam dizer que a estreia destes “modelos” vai começar na área das doenças neurodegenerativas, como a Parkinson e a Alzheimer. Depois virá o resto. Podem ser “produzidos” macacos com doenças metabólicas, cancro, imunodeficiências, entre outras, sugeriram os investigadores.

Em resumo, é para isto que estes clones servem: para garantir à comunidade científica o melhor modelo animal para estudar doenças humanas. Os autores do artigo acreditam ainda que a possibilidade de os “editar geneticamente” para ter esta ou aquela doença fará com que o número de primatas usados em experiências seja consideravelmente menor.

Na conferência de imprensa, a primeira pergunta era a que (muito provavelmente) passa pela cabeça de qualquer um de nós: “Esta técnica pode ser usada com células humanas, em humanos?” “Sim”, respondeu Muming Poo, sem hesitar, confirmando que “as barreiras técnicas foram ultrapassadas e, assim, em princípio, podem ser usadas em humanos”.

Mas, apressou-se a acrescentar: “No entanto, a razão para termos quebrado esta barreira é produzir modelos animais que serão úteis para a medicina e saúde humana. Não existe qualquer intenção, da nossa parte, para aplicar este método a humanos.”

Depois, outras perguntas curiosas. Quanto tempo demora a fazer um clone de um primata não humano? “Cerca de nove meses, dois ou três para a parte de preparação das células e cinco ou seis para a gestação.”Quanto custa cada clone? “Sem contar com o custo das infra-estruturas, equipamentos e recursos humanos, cada clone custará cerca de 50 mil dólares [cerca de 40 mil euros] a fazer”, responderam os cientistas.

Estes clones são epigeneticamente idênticos? “Não sabemos, podem existir diferenças subtis mas teremos de fazer uma análise epigenética mais tarde.” Qual será a primeira doença que vão estudar com este modelo animal clonado? “Devemos começar com as doenças neurodegenerativas e o mais fácil será começar com a Parkinson. Mas podemos fazer uma centena de modelos úteis diferentes.”

Quantos clones conseguem produzir por ano? “Actualmente, dois ou três. Mas há planos do Governo para expandirmos as nossas instalações pelo menos dez vezes. Se isso acontecer, dentro de cerca de cinco anos, podemos conseguir produzir 20 ou 30.”

No final da conferência voltou a preocupação com a clonagem humana. “Com estes modelos, a clonagem humana não é necessária para nós. Não existe nenhuma razão para isso, neste momento. A razão para clonar macacos é muito clara: ajudar os humanos a tratar doenças”, insistiu Muming Poo.

Os investigadores admitem, no entanto, que depois de ultrapassada a barreira técnica outros laboratórios façam experiências que podem ser mais ou menos controladas.

Zhen Liu, outro dos autores do artigo, também respondeu ao medo: “Tem de ser feita uma discussão internacional sobre este tema, os problemas éticos estão na agenda.

Também na China vamos discutir isto. Temos, juntos, de ver qual deve ser a auto-regulação dos cientistas e quais serão as regras impostas pelos governos. As duas são importantes.”

Muming Poo admitiu num comentário final: “A preocupação é normal”, referindo ainda: “A minha maior esperança é que a sociedade perceba que o nosso trabalho com primatas não humanos é para ser usado para benefício humano.”

Notícia do Público de 24/01/2018.